Caminhar

Como alguém que gosta de inteligência pode simplesmente se dizer avesso a poesia? Como alguém que percebe nas coisas a sua essência pode realmente não ouvir sua melodia? Todas as coisas que você vê, respiram o verbo. Todas as coisas que você toca, transpiram o verso. Objetividade é algo realmente importante em várias partes da vida, porém, sem o lúdico, sem o lírico, não passamos de um amontoado de dúvidas em um misto com falsas certezas. Ter um rumo, as vezes te desvia da rima, dos acordes e do riso, deixando apenas uma dor húmida sem sentido e cheia de tristezas. O que adianta centrar em um objetivo, quando na verdade o interessante da vida é o caminho? O que vale seguir regras, vestir réguas, mas não se sentir vivo? O que importa não é o desprentencioso sorriso, mas sim o sentimento, as imagens que provocaram em seu olhar esse sorrir sem notar. O importante mesmo não é o destino, mas sim o vento, as paisagens e pessoas que você conhece antes de chegar ao fim o seu caminhar.

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Transborde

Sabia que você não deve procurar alguém que te complete? Completar é algo raro hoje em dia, mas possível, porém com o passar do tempo e dos acontecimentos da vida, pessoas parecidas tendem a se saturar, ou seja, passam a não se interessarem um pelo outro, ou pior, a não instigarem em seu avesso, o todo. Na verdade, apesar de ser algo extremamente difícil, temos que nos completar sozinhos, e buscar alguém que nos invada, nos tire do lugar comum, nos leve a lugar nenhum, nos traga dúvida e devaneio, nos atire na loucura e diga a que veio, nos jogue das alturas e nos acerte em cheio, pois, o que faz a canção é rimar o sopro e não a melodia, o que causa paixão é mar revolto e não a calmaria. Não busque o silêncio, o final, mas sim os acordes. Não procure o certo, o sem sal, mas o que te transborde.

*Inspirado em escritos de Clarice Lispector e Fabrício Carpinejar

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Um Homem Otimista

Jorge era um homem otimista, gostava de namorar, tinha muitas mulheres e pouca responsabilidade. Muita gente o considerava irresponsável, principalmente suas ex-amantes que tinham dificuldade em criar os filhos, se bem que a paternidade também era uma grande dúvida.

Curiosamente, as ex-amantes e filhos sempre conseguiam acertar a vida de alguma forma, enquanto ele continuava sua vidinha dura de sempre.

Ele era galante e sempre estava a procura de uma mulher bonita, atraente e que lhe interessasse, quase sempre conseguia conquistar seu objeto do desejo.

O tempo passou e Jorge envelheceu, mas ninguém notava, já que ele era muito conservado e aparentava ser um irmão de seus filhos. Entretanto, a vida ia se tornando cada vez mais difícil, já não era tão jovem, apesar das aparências.

Com a vida “cada vez mais devagar” e o tempo cada vez mais acelerado, a ideia de que o mundo um dia poderia acabar, passou-lhe pela primeira vez em sua mente. Jorge, que já conseguia controlar os seus ímpetos, encontrou o seu verdadeiro amor e decidiu construir o seu castelo dos sonhos.

Passava o tempo todo trabalhando e parou de beber, fumar e arriscar a sorte, de fato já encontrara a sua sorte, pensava.

Convidado para conhecer uma igreja, pensou que essa seria a hora de demonstrar ao seu amor o quanto era um bom homem. Agora o seu tempo vago era dedicado às leituras frequentes da Bíblia e à sua companheira.

Todas as pessoas admiravam a mudança radical pela qual aquele homem havia passado e não era raro algumas pessoas demonstrarem inveja.

Quando a sua vida já se encaminhava para as primeiras grandes conquistas, um fato inesperado aconteceu. O homem ao qual Jorge tanto confiava e considerava o seu melhor amigo, traiu a sua confiança.

Descobriu da maneira mais difícil que seu amigo havia fugido com sua esposa.

Perdera a esposa, o amigo e todo o tempo que havia dedicado a sua nova vida. De fato, seu castelo desmoronou, quando alguém lhe disse que sua esposa havia fugido com o pastor de sua igreja.

Agora, ele nem procurava um motivo para o que acontecera, afinal, todo o dinheiro que ele vinha economizando para comprar sua própria casa, perdeu a serventia, sua mulher não reclamou nada que fosse dele.

Pediu dispensa do emprego e decidiu mudar para longe dali, para uma cidade grande. Confiante como era, queria esquecer o mais rápido possível de sua infelicidade, felizmente tinha dinheiro para a mudança.

Já estava morando na cidade grande, mas a idade avançada parecia não ajudar muito. Um dia se perdeu em pensamentos e foi atropelado, levou algum tempo para se recuperar, entretanto, um dos muitos filhos que tivera o ajudou.

Não demorou para que tivesse de voltar para casa, onde encontraria o aconchego de um de seus muitos filhos, que via nele um homem bom, bem longe da opinião dos outros que só viam o homem irresponsável.

Algum tempo depois, o homem otimista morreu, sempre acreditando que viveria muito mais e, em nenhum momento, pensou que iria morrer, nem mesmo depois que já estava morto.

Ele se tornou o fantasma mais otimista do cemitério onde morava. Havia conseguido finalmente o seu castelo, pequeno, mas muito confortável – não precisava mais – pensou.

Leia o original.

 

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Desemprego Gramatical

A sala já estava cheia. Todos aguardavam, apreensivos, o início da reunião.

– Ouvi dizer que vão fazer uns cortes no orçamento. – disse o Travessão.

– Cortes? Como assim? Onde você ouviu isso? – perguntou a Interrogação.

– É, um de nós vai pra rua hoje. – respondeu o Travessão.

– Bem, não contem comigo. Se tem alguém que não precisa se preocupar aqui com isso, esse alguém sou eu. – disse o Ponto Final.

– Tava demorando para o Sr. Arrogante abrir a boca. – disse a Vírgula.

– Você sabe muito bem que eu tenho razão. Eu sou o mais usado. O mundo inteiro me usa. Eles não podem abolir o Ponto Final, fato. – retrucou ele.

– Ah, querido. A questão não é essa, todos nós sabemos da sua utilidade no mundo gramatical, não precisa jogar na cara de ninguém. O problema é a sua arrogância, isso sim. – disse a Vírgula estressadíssima.

– Isso é inveja! Só porque ninguém sabe usar você! – gritou ele.

Todos na sala ficaram boquiabertos.

– Isso mesmo! Essa é a verdade. É o que todo mundo pensa, mas ninguém tem coragem de falar: ninguém usa você adequadamente. É tudo na intuição. Sem contar que um pequeno erro, já muda todo o sentido de uma frase. Você só causa confusão. – gritou o Ponto Final.

– Seu ridículo. – disse a Vírgula, com um tom de voz choroso. – Não sei como eu fiquei tanto tempo casada com você.

– Mamãe, parem de brigar. – disse o Ponto-e-Vírgula.

– É, ninguém merece. – disse o Dois-Pontos.

– Eu e o papai não estamos brigando, estamos apenas conversando. – disse a Vírgula.

– É que a mãe de vocês não consegue ouvir a verdade. – disse o Ponto Final.

– Parem de brigar. – gritou o Agudo. – Pelo amor de Deus! Nós temos um problema mais sério aqui para resolver.

– Que problema? Por que você acha isso? Como você sabe? – indagou a Interrogação.

– Tensão… – sussurraram as Reticências.

– Para de fazer tantas perguntas, Interrogação! Que saco! Já chega! – gritou a Exclamação. – É óbvio que vem coisa ruim por aí! Do contrário o Dicionário não teria marcado essa reunião urgente!

– Medo… – sussurraram novamente as Reticências.

– Ouvi boatos no corredor de que um novo acordo ortográfico vai entrar em vigor. – disse o Travessão.

– Pavor… – sussurraram as Reticências.

– Mas vocês querem parar de falar essas palavras soltas?! Minha Nossa Senhora, vocês são muito chatas! Essas Reticências são insuportáveis… Fala sério. – gritou o Agudo, perdendo a paciência.

O silêncio tomou conta da sala. Todos se entreolhavam.

– Sou eu. Eles vão me demitir. Estou sentindo. – disse o Circunflexo. – Ninguém sabe nem o meu nome. Eles me chamam de chapeuzinho. – e Circunflexo caiu no choro.

– Não… Sou eu quem eles vão demitir. – disse o Cedilha. – Nunca gostaram de mim. E o ss tem o mesmo som que eu, além de ter mais carisma.

– Se é assim, eu estou fora também. Hoje em dia ninguém mais tem paciência de me usar. – disse o Til. – As pessoas não querem perder tempo me colocando nas palavras. Foi-se o tempo em que o topete nas letras fazia sucesso…

– Calma, pessoal. Não vamos sofrer por antecipação. Talvez esse boato seja furado. Talvez o Dicionário venha dizer que vamos receber um aumento no salário. É, pode ser isso. – disse o Travessão tentando acalmar os outros.

– Para com isso. Todo mundo sabe que é notícia ruim, Travessão. – disse o Ponto Final. – Você não se lembra da última reunião urgente que fizeram aqui? E os boatos se confirmaram. Não deu outra: era um novo acordo ortográfico. Vocês não se lembram? – perguntou ele.

– Claro. Como poderíamos esquecer? – disse o Agudo. – Aquele acordo ortográfico sangrento… Eu sinto tanta falta do ph.

– Alguém tem uma neosaldina? – perguntou o Apóstrofo. – Minha cabeça vai explodir. Minha pressão está caindo. Se alguém aqui vai ser demitido, sou eu! Ninguém faz a menor ideia de quando me usar. Nem eu sei direito quando devem me usar. Alguém aqui sabe?

Um silêncio constrangedor se formou.

– Estão vendo?! – gritou ele. – Para muitos, eu sou só uma Vírgula voadora.

– Meu Deus, Apóstrofo. Você está vivendo uma crise de identidade horrível. – disse o Travessão. – Eu tenho um psicólogo muito bom, depois lhe passo o telefone dele.

– Obrigado. – respondeu ele aos prantos.

– Que horas são? Por que está demorando tanto? Já não era para ter começado essa reunião? O Dicionário já não devia ter chegado? – perguntou a Interrogação.

– Pânico… – sussurraram as Reticências.

– Alguém manda elas calarem a boca! – gritou o Ponto Final. – Essas loucas varridas ficam falando essas palavras soltas!

– Fúria…

– Já chega. – e o Ponto Final avançou nas Reticências.

Uma grande briga começou.

– Parem com isso! – gritou a Exclamação. – Hífen, separa eles!

O Hífen foi correndo separar a briga, quando de repente o Dicionário entrou na sala. Fez-se um silêncio. Todos ficaram imóveis. O Dicionário foi até o centro da sala e encarou um por um.

– Desculpem-me por ter os tirado de seus aposentos, mas o assunto é sério. Foi decidido um novo acordo ortográfico.

– Eu sabia! – gritou o Travessão.

– Hífen, você sofreu algumas modificações no seu uso. – disse o Dicionário.

Todos olharam compadecidos para o Hífen.

– Eu? – perguntou o Hífen tremendo.

– Sim, depois nós conversaremos melhor sobre essas mudanças. Agudo e Circunflexo, vocês dois também sofreram alterações.

– Eu tinha certeza. – resmungou o Circunflexo. – Perdi as vogais tônicas fechadas em “o” nas paroxítonas, não é?

– Sim. Você não trabalhará mais com o enjoo, voo… – respondeu o Dicionário.

– Tudo bem, sempre me colocavam no lugar errado mesmo. – retrucou o Circunflexo. – Pelo menos tem um lado bom nisso tudo, vou sair em todas as manchetes de jornais e revistas. Quem sabe assim eles aprendem que o meu nome não é chapeuzinho.

– E três velhos amigos serão reintroduzidos ao alfabeto: o k, w e y. Os três já estão em seus novos aposentos. Preciso da ajuda de todos para acabar com o bullying que acontece com eles, está bem? – disse o Dicionário.

Todos afirmaram com a cabeça.

– E onde está o Trema? – perguntou o Dicionário.

O Trema, que estava sentado no fundo da sala, levantou a mão.

– Aqui, senhor.

– Você está demitido. – disse o Dicionário.

Todos ficaram boquiabertos.

– O quê? – gritou a Vírgula. – Mas e a lingüiça?

– Oi? – perguntou o Dicionário.

– Como as pessoas irão falar lingüiça sem o Trema? – perguntou a Vírgula.

– Mas infelizmente foi o que eles decidiram. – respondeu o Dicionário.

– Mas eu nunca fiz nada, sempre fiquei na minha. – disse o Trema.

– Eles disseram o motivo? – perguntou a Interrogação.

– Tem a ver com o departamento de Portugal, mas não deixaram muito claro. – disse o Dicionário.

O Trema levantou-se e abraçou um por um. Alguns choravam desesperadamente, como era o caso da Vírgula. O Trema foi até o seu quarto, fez a sua mala e saiu com a premissa de que tudo iria ficar tranqüilo. Tranquilo. Tranqüilo.

(Uma singela homenagem ao trema.
Trema, nunca te abandonarei.)

Thalles Cabral

Do blog 9 Estórias

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