Egoísta

Quero sorrir,
como sorria pequeno.
Quero tirar da boca
o gosto seco do veneno.

Sou corpo de mil almas
em miríade de alucinações,
travando batalha pálida
num coletivo de solidões.

Há dias
que tudo que quero
é não querer nada…
mesmo.

Chorar como cego,
amar como anjo
e fazer drama
até no piscar dos olhos.

 

Thiago Dalleck

 

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A Pequenitude das Coisas Grandes

Lembro de uma fixação latente por mãos. Talvez ela nem saiba que tem mãos ansiosas. Ela não quer saber de uma porção de coisas. Talvez saiba demais. Talvez eu a tenha deixado saber demais. De boca fechada, meus olhos gritam mais alto que o barulho da tevê que ilumina o quarto. Lembro de fechá-los por vontade própria, a fim de que ela não me visse despido de tudo que eu crio pra que ela não preste muita atenção em mim.

Distrações. Uma grande orquestra tocando uma pequena canção. Detalhes singelos que ganham proporções quase épicas. As mãos ansiosas. Lembro de jogar pedras naquela janela para, quem sabe, enxergar através das brechas algo que me mostre que eu não sou o único perdendo a razão aqui, nesse sofá. Sinto que somos como dois carrosséis que giram em sentidos opostos. Eu não quero saber o que acontece quando estamos de costas um para o outro.

Há pouco estávamos aqui, enxergando um ao outro de uma distância que pode ser medida com os dedos de uma mão. Em meu carpete, marcas de sapatos que viajaram o universo procurando sentir aquilo. E eu senti tudo aqui, quieto. Fechava os olhos sempre que sentia os meus pensamentos tentando saltar através das órbitas. Tive medo de vê-los derramados pelos lençóis, de vê-la olhando atônita para aquilo tudo, como se não fosse capaz de ouvir os meus olhos gritando.

Já tive sentimentos imensuráveis. Imensurável também era tudo que vinha agregado ao fato de sentir algo que não cabe no peito. A orquestra foi perdendo, aos poucos, seus membros mais importantes, até que o desfalque era tamanho que me feria os ouvidos. Uma desafinada sinfonia, sem melodia nem cadência, conduzida por um maestro que não está mais lá. Hoje minha filarmônica ensaia um movimento diferente, que eu tento chamar, mas não consigo, de distração. Uma grande orquestra tocando uma pequena canção.

E a música dela é nova, é rara, é curta, e quase nunca toca no meu gramofone. Mas é no mesmo tom da minha. Ela parece não saber que cada nota ficou na minha cabeça, como uma partitura escrita pelas paredes da minha casa. Ela parece não querer saber. Mas cá estou eu, sempre falando um pouco demais.

Porra, guria. Porra. Quem te escreveu assim?

 

Lucas Silveira

 

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Todo Carnaval tem seu Fim?

Se conheceram num bloco de carnaval ao meio dia de uma quarta feira ensolarada. Tudo cheirava à festa e as pessoas tinham na cara e no jeito, aquele típico desespero de quem só tem um dia(o último) para brincar o carnaval, afogar as mágoas e exorcizar demônios.

Ela, vestida de anjo que caiu do céu, tinha todos os sonhos do mundo naquele coração rosa, e ele com a farda branca de um marinheiro envolto em mares de festa e bebida, parecia naufragado em suas dores e mágoas. Trombaram um no outro, assim, como quem não quer nada, mas logo em seguida se afastaram, em meio à multidão que cantava e ria e delirava, debaixo daqueles sons todos e daquele turbilhão de confete, serpentina e suor.

Era um emaranhado só: gente pequena, gente grande, gente bêbada e gente sã, sem contar aqueles que não eram nem mais gente e sim um turba de porquinhos cor de rosa, coelhinhas da playboy, cachorros, gatos, cobras e até um jacaré. Pois é! No Carnaval podia tudo, pois tudo era permitido. Mas foi só depois que rolou aquela briga entre o capitão e o palhaço que tinha tomado umas e dado em cima da colombina de vestido azul, que em meio aos cacos de garrafa e trambolhões ela disse: “Que carnaval mais violento minha gente, esse povo não sabe curtir!” enquanto ele de longe,a olhava pelo canto dos olhos e via embevecido, como ela ficava linda quando irritada, levantando a sobrancelha direita e fazendo biquinho.

E foi só aí que ele fez a única coisa que lhe restava fazer, e quando a banda tocou aquela música antiga que falava de amor e repetia no refrão que o bom da vida era ser feliz, ele tomou-a pelo braço e no enlaço festivo a cartada final: “Vem comigo que hoje o dia é nosso, a vontade de te beijar é grande e o mundo é pequeno pro meu desejo” . O que veio depois, foram beijos, abraços e amassos sobre um céu abrasador. E dançaram, festejaram, tomaram banho de champanhe e cobriram-se de serpentinas coloridas.

De tão envolvidos que estavam, nem perceberam o tempo passar e a noite chegar, trazendo com o seu manto o fim da banda, do carnaval, das colombinas e curtição.

E sem o carnaval a rua era só uma rua, os bichos viravam gente comum e até o palhaço não tinha mais graça, com seu sorriso pintado jazendo pendurado naquele rosto sem cor. A vida depois do carnaval era só a vida: Comum, real, profundamente palpável e indelével. E permaneceria assim, até quando o próximo carnaval chegasse e trouxesse novamente com ele, aquela outra vida, aquela outra realidade, aquela outra dimensão humana e onírica.

Manú Sena

Do Blog Poética Prosa

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Estável

O cara é tarado por estabilidade profissional, mesmo que isso signifique ser um cara meio pobre estavelmente, por meio de um concurso público.

Esse cara procura estabilidade também em outras coisas da vida: seus dias de semana são estáveis porque ele não se atreve a beber quando tem vontade, porque é meio de semana. É dia de assistir ao jornal e à novela, jantar e dormir.

Depois de passar a semana inteira de forma estável fica meio difícil conviver com qualquer tipo de contraste. Então, sexta-feira é o dia de assistir ao Globo Repórter enquanto toma 1 latinha de Skol, porque ninguém é de ferro. No sábado, fica com um pouco de preguiça de almoçar fora, até porque essas comidas meio estranhas e frescas não lhe agradam muito.

De noite, aí sim. Se é solteiro, veste a gola polo, vai pra um sushi e depois pra balada ver umas meninas que ele não tem a mínima ideia de como pegar. Se é casado, sai também, claro. Vai pra uma lanchonete com luz fluorescente branca e TV ligada e toma suas latinhas de Brahma, curtindo a companhia da esposa ao assistir a Zorra Total e rindo do bordão da Valesca/Valéria bandida. Sábado é foda.

Já o domingo é o dia do descanso, já que essa mudança brusca de rotina pode fazer mal. Almoço em família, aquela macarronada sem gosto ou o churrasco de patinho, acompanhado de algumas Itaipavas, que vão fazer com que dê uma cochilada no sofá enquanto assistia às vídeo-cassetadas. Mas chega, porque amanhã é segunda, tem que estar bem pra vestir a camisa da repartição pública e manter sua estabilidade. Limpa a baba, vai tomar um banho. Já já começa o Fantástico.

Não viaja muito porque dá muito trabalho, gasta-se dinheiro e a comida de casa lhe faz falta, mesmo que por um final de semana. Mas acaba viajando, talvez nas férias (3 semanas muito bem dormidas em casa e vários filmes da Sessão da Tarde e 1 semana pra viajar, o melhor ponto de equilíbrio).

Provavelmente vai pro mesmo lugar pro qual sempre costuma ir, porque já conhece bem e não muita coisa nova que possa lhe assustar. O lugar tem uma praia legal, mas pra que gastar com essas comidas de praia? Camarão e peixe só se come em casa porque na praia dá alergia. Vai saber a qualidade da cozinha dessas barracas.

O almoço por kg é bem melhor porque mata um pouco da saudade da comidinha caseira. E sai baratinho, bom que economiza, ainda mais agora que tá trocando o Gol antigo por um Gol mais novo. De noite dá aquela preguiça. Pra que beber em bar se a Antarctica é R$6,00 ou ir pra um restaurante francês? Frescura demais, não aguento povo fresco. Melhor ir naquela lanchonete ali que tem um x-tudo baratinho e a latinha de Schin é R$2,00.

No fim das férias, até vai dar uma tristezinha de leve em ter que voltar a trabalhar. Mas daqui 1 ano tem mais. E também tem muito feriado, que é quase um prolongamento dos seus fins de semana, tá tudo bem. E como é bom ter uma vida estável pra chamar de sua. Levando a vida assim, logo chega a aposentadoria, que é seu objetivo de vida, já que a vida é muito intensa e ele merece um descanso após viver tanta coisa.

Danilo Miranda Rodrigues

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