Todas as Estações em Mim

 

Antecipa-me futuro amor
Quando me invade primaveril aroma
Olfato de amores-perfeitos
Em bem-me-quer arrisco a sorte
E contempla-me orvalho
Em deslumbre canteiro
Fartas cores delicadas em pétalas
Revestem-me frescores de lima
Verões de versos consomem
Em calores à beira mar
Trazem ao corpo o rubor
Digitais solares de ouro
Que mapeiam a pele
Num quase esconderijo
De gemidos e sal
Rimas de outono estalam
Folhas bailam em brisa
Bailarinas do seu tempo
Povoam em tapete
Calçadas e passos desatentos
Em deslizes invernos
Paisagem gélida
Agasalho de lã
Lilases dizem de mim
Refaço-me em calafrio
E recobre-me com seus perfumes
Mordisco o lábio
Em ideias sobre você
Desconsiderando calendários
Preferindo estações distraídas
Infinitas como o desejo
Atemporal do poema

 

 

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Garimpando Sonhos

A razão ao peito se cala
Meu coração vive em memórias
Vou narrando no mudo minha fala
repensando impensadas histórias
Vejo de longe, sentindo de perto
Merecendo o que me foi reservado
lembranças traduzem meu livro aberto
faltando verdades, sobrando pecado
Abdiquei de uma vida por capricho
Aventurado gosto doce da ilusão
me desfiz das jóias, apeguei-me ao lixo
garimpando mentiras encontrei diversão
Sigo a tragédia do prazer desregrado
Entendendo a falta que a falta me faz
Fechei seus olhos, ocultando o culpado
Não julgue meu sonho, nem o que ele traz

Breno Massena

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Aqueça e esqueça

Deixe as coisas pegarem fogo.
Aproveite esse calor enquanto puder.
Aqueça as mãos, reluza os olhos.
Quem sabe até as cinzas não te aqueçam o coração?

Alimente as flamas indomáveis, inflamáveis
Me disseram que mesmo elas, ardentes,
precisam se suprir de ar, certamente.

Risque a pele com carvão
Demarque à brasa teu terreno
Não espere que a chuva alcance
antes, ouça a música e dance.

Ou então apenas descanse sereno.

E mesmo depois do mar,
dessa tristeza que cai do céu
Um pouco de luz, uma paixão latente
Algo para aquecer e acordar a mente.

Reviva as incandecências
Redija as incoerências

Mesmo que a paus e pedras.
Entre na dança!
Envolva-se nesse bailar explosivo, compulsivo.
Mesmo caindo, sustente-se no vento.

E então
balance sem pressa a cabeça.

E então
sorrateiramente esqueça.

 

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Eu que era eu

Eu, que era eu.
Sim, porque eu já fui eu …
Mas cheguei à triste conclusão de que não sou mais eu.
Meu nome, que por isso mesmo, já esqueci,
não interessa mais a ninguém.
Para um médico, sou apenas cliente.
Num restaurante, sou freguês.
Quando alugo uma casa, viro inquilino.
Na condução sou passageiro.
Nos correios, sou remetente.
No supermercado sou consumidor.
Para o Imposto de Renda sou contribuinte,
Com o prazo vencido sou inadimplente e se não pago sou sonegador.
Para votar, sou eleitor; mas no comício sou massa.
Viajar? Viro turista.
Na rua, caminhando, sou pedestre; e se me atropelam sou acidentado;
No hospital viro paciente e para os jornais sou vítima.
Se compro um livro, viro leitor; para o rádio sou ouvinte;
para o Ibope, espectador e, para o futebol, eu,
que já fui torcedor, virei galera.
Para acabar com esse complexo… sim, porque estou complexado …
aconselharam-me a procurar um terreiro. Mas foi tiro n’água.
Assim que falei com o pai-de-santo, virei mi-zi-fi-i-nho.
Já que, quando morrer, ninguém vai se lembrar do meu nome.
Vão me chamar de finado, o extinto, o defunto e,
em certos casos círculos, até de o desencarnado …
E pensar que, no meu apogeu, já fui mais eu.

Autor Desconhecido

 

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