Dor Lunar

 

É tão bela a luz do luar
Derramada sobre as madrugadas
E iluminando as serenatas
De quem inda se arrisca a amar

São tão longas as noites que passo
Sob a praia em leves caminhadas
Só a lua doce e mal amada
Me acompanha em tudo o quefaço

Sinto ,pena da pobre coitada
Vive tão solitária no céu
Isolada, sozinha, ao léu
E se esforça sem conseguir nada

Luta para chamar a atenção
Por mais que tente nunca consegue
E só mesmo os loucos poetas
Hão de transformar luz em canção

Enquanto o Sol insiste em nascer
Com seu brilho de Rei poderoso
O luar sempre triste e medroso
Por vergonha teima em se esconder.

 

(Padilha)

A Guerra dos Gramofones

Ao sul do lado escuro da lua encontravam-se seres inanimados que entoavam cantigas velhas e cultuavam divindades insólitas e que se utilizavam de um antigo aparelho que reproduzia sons humanos em uma frequência desindexada e invariavelmente desplugada que poucos dos ouvintes que ali estavam se atentavam para o fato daquilo ser tão único e tão sureal, principalmente naquele tempo de guerras e devastação.

Um velho tenta enviar um pedido de socorro através de código morse, mas as frequentes quedas de energia e a onda solar que destruiu todos os aparelhos eletrônicos da terra, tornam sua tentativa vã e sem sucesso, e mesmo que consiga, sabe que a probabilidade de ter alguém que possa lhe ajudar é pequena, para não dizer irrisória.

De repente uma explosão e um terremoto fazem todos que estão por ali, correrem e procurarem as fendas para se abrigarem, pois sabem que a qualquer momento chuvas de asteróides podem castigar o solo lunar. Mesmo no caos, uma menina chora olhando com perplexidade o azul acinzentado daquilo que um dia foi o seu lar e agora não passa de um planeta ceifado de seus habitantes e repleto de gases mortais e seres estranhos dotados de uma crueldade bizarra e desprovidos de qualquer característica humana. Antes da fuga em massa, sua mãe havia lhe contado dos problemas que o próprio homem tinha causado a si mesmo ao desobedecer as leis da natureza e como os homens foram se degradando das formas mais aterradoras possíveis. Ela sabia que tão nova, não tinha participado das atrocidades cometidas contra sua casa, mas pagava o alto preço de ter a certeza que nunca mais iria voltar para sua vida.

Uma senhora sentada em uma cadeira de balanço ouve uma música triste em um gramofone todo amassado e tece alguns nós de tricô, vendo aquilo um rapaz não se contem e pergunta: Como pode ter tanta calma senhora, estamos em um planeta ostil, refugiados e sem saber se um dia conseguiremos voltar para nossa terra? A senhora então sorri, com o olhar vago, perdido, sem foco e diz: Ingênuo rapaz, aquela vida que você vivia nada mais era que uma morte maquiada, onde tudo era robotizado, temos mais é que dar graças ao sol, como faziam os antigos, pois se não fosse ele, estaríamos lá naquele planeta insano, perdendo nossos anos sem as vezes dizer um simples: eu te amo!

Mundo da Lua

Sem lugar no meu próprio espaço
Me perco em mim,
Fracasso.
Não olvidados meu amor,
minha inquietação
Busco além de mim
o que em mim não encontro razão

Fora daqui talvez lhe pareça
Inquieta que sou,
Que busco alguma certeza
Sem as dúvidas que sobrevoam
E se assentam sobre o meu ser
Me acho
Me encolho. Escondo. Incomodo

Busco além de ti o que me convém
Busco incerteza,
embora mesmo antes a tenha encontrado
E vivo aqui, assim
A perseguir um surreal colapso

Procuro somente sentir.
Me redimir das culpas do acaso.

Fuja de mim, não se permita
Perambulante incerteza que sou nessa vida…
Não se importe com minha mente insana,
Meus prazeres inconstantes,
Pois vivo, e quero, somente aqui

No mundo da Lua existir.