Todo Carnaval tem seu Fim?

Se conheceram num bloco de carnaval ao meio dia de uma quarta feira ensolarada. Tudo cheirava à festa e as pessoas tinham na cara e no jeito, aquele típico desespero de quem só tem um dia(o último) para brincar o carnaval, afogar as mágoas e exorcizar demônios.

Ela, vestida de anjo que caiu do céu, tinha todos os sonhos do mundo naquele coração rosa, e ele com a farda branca de um marinheiro envolto em mares de festa e bebida, parecia naufragado em suas dores e mágoas. Trombaram um no outro, assim, como quem não quer nada, mas logo em seguida se afastaram, em meio à multidão que cantava e ria e delirava, debaixo daqueles sons todos e daquele turbilhão de confete, serpentina e suor.

Era um emaranhado só: gente pequena, gente grande, gente bêbada e gente sã, sem contar aqueles que não eram nem mais gente e sim um turba de porquinhos cor de rosa, coelhinhas da playboy, cachorros, gatos, cobras e até um jacaré. Pois é! No Carnaval podia tudo, pois tudo era permitido. Mas foi só depois que rolou aquela briga entre o capitão e o palhaço que tinha tomado umas e dado em cima da colombina de vestido azul, que em meio aos cacos de garrafa e trambolhões ela disse: “Que carnaval mais violento minha gente, esse povo não sabe curtir!” enquanto ele de longe,a olhava pelo canto dos olhos e via embevecido, como ela ficava linda quando irritada, levantando a sobrancelha direita e fazendo biquinho.

E foi só aí que ele fez a única coisa que lhe restava fazer, e quando a banda tocou aquela música antiga que falava de amor e repetia no refrão que o bom da vida era ser feliz, ele tomou-a pelo braço e no enlaço festivo a cartada final: “Vem comigo que hoje o dia é nosso, a vontade de te beijar é grande e o mundo é pequeno pro meu desejo” . O que veio depois, foram beijos, abraços e amassos sobre um céu abrasador. E dançaram, festejaram, tomaram banho de champanhe e cobriram-se de serpentinas coloridas.

De tão envolvidos que estavam, nem perceberam o tempo passar e a noite chegar, trazendo com o seu manto o fim da banda, do carnaval, das colombinas e curtição.

E sem o carnaval a rua era só uma rua, os bichos viravam gente comum e até o palhaço não tinha mais graça, com seu sorriso pintado jazendo pendurado naquele rosto sem cor. A vida depois do carnaval era só a vida: Comum, real, profundamente palpável e indelével. E permaneceria assim, até quando o próximo carnaval chegasse e trouxesse novamente com ele, aquela outra vida, aquela outra realidade, aquela outra dimensão humana e onírica.

Manú Sena

Do Blog Poética Prosa

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Não dizMaglore | Transborde

Estável

O cara é tarado por estabilidade profissional, mesmo que isso signifique ser um cara meio pobre estavelmente, por meio de um concurso público.

Esse cara procura estabilidade também em outras coisas da vida: seus dias de semana são estáveis porque ele não se atreve a beber quando tem vontade, porque é meio de semana. É dia de assistir ao jornal e à novela, jantar e dormir.

Depois de passar a semana inteira de forma estável fica meio difícil conviver com qualquer tipo de contraste. Então, sexta-feira é o dia de assistir ao Globo Repórter enquanto toma 1 latinha de Skol, porque ninguém é de ferro. No sábado, fica com um pouco de preguiça de almoçar fora, até porque essas comidas meio estranhas e frescas não lhe agradam muito.

De noite, aí sim. Se é solteiro, veste a gola polo, vai pra um sushi e depois pra balada ver umas meninas que ele não tem a mínima ideia de como pegar. Se é casado, sai também, claro. Vai pra uma lanchonete com luz fluorescente branca e TV ligada e toma suas latinhas de Brahma, curtindo a companhia da esposa ao assistir a Zorra Total e rindo do bordão da Valesca/Valéria bandida. Sábado é foda.

Já o domingo é o dia do descanso, já que essa mudança brusca de rotina pode fazer mal. Almoço em família, aquela macarronada sem gosto ou o churrasco de patinho, acompanhado de algumas Itaipavas, que vão fazer com que dê uma cochilada no sofá enquanto assistia às vídeo-cassetadas. Mas chega, porque amanhã é segunda, tem que estar bem pra vestir a camisa da repartição pública e manter sua estabilidade. Limpa a baba, vai tomar um banho. Já já começa o Fantástico.

Não viaja muito porque dá muito trabalho, gasta-se dinheiro e a comida de casa lhe faz falta, mesmo que por um final de semana. Mas acaba viajando, talvez nas férias (3 semanas muito bem dormidas em casa e vários filmes da Sessão da Tarde e 1 semana pra viajar, o melhor ponto de equilíbrio).

Provavelmente vai pro mesmo lugar pro qual sempre costuma ir, porque já conhece bem e não muita coisa nova que possa lhe assustar. O lugar tem uma praia legal, mas pra que gastar com essas comidas de praia? Camarão e peixe só se come em casa porque na praia dá alergia. Vai saber a qualidade da cozinha dessas barracas.

O almoço por kg é bem melhor porque mata um pouco da saudade da comidinha caseira. E sai baratinho, bom que economiza, ainda mais agora que tá trocando o Gol antigo por um Gol mais novo. De noite dá aquela preguiça. Pra que beber em bar se a Antarctica é R$6,00 ou ir pra um restaurante francês? Frescura demais, não aguento povo fresco. Melhor ir naquela lanchonete ali que tem um x-tudo baratinho e a latinha de Schin é R$2,00.

No fim das férias, até vai dar uma tristezinha de leve em ter que voltar a trabalhar. Mas daqui 1 ano tem mais. E também tem muito feriado, que é quase um prolongamento dos seus fins de semana, tá tudo bem. E como é bom ter uma vida estável pra chamar de sua. Levando a vida assim, logo chega a aposentadoria, que é seu objetivo de vida, já que a vida é muito intensa e ele merece um descanso após viver tanta coisa.

Danilo Miranda Rodrigues

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Maria, Lucia | Das Flores Que Não PlanteiIgor de Carvalho

Hoje choveu Nova Iork

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Uma chuva fina, torta, cortante, que me lembrou uma viagem que fiz pra Nova York. Era incrível como os pingos cadentes choviam uma nostalgia contínua, que beirava o slow motion. Era vagaroso. Bem lento. As músicas são assim também, trazem memórias. Há quem diga que um perfume lembre um momento, outros acreditam nas cores, e ainda há outros que defendem as texturas. “Áspero como o muro do quintal que eu morei quando tinha três anos”. Mas nunca pensei que com a chuva funcionasse também. Já chovia há uns, sem brincadeira!, quinze minutos, e foi só depois disso que percebi que estava sem guarda-chuva e, portanto, vesti o capuz do casaco. Mas bastaram quinze minutos para uma série de imagens ressuscitarem, foi como abrir uma gaveta cheia de papéis guardados trancada há muitos anos e apontar um ventilador ligado para os papéis, a fim de ver tudo aquilo pelos ares espalhando poeira pra todos os lados. Lembrar de coisas boas vividas que você gostaria que fossem vividas de novo e de novo e de novo. Empreendedores de plantão, percebam essa ideia: o quão legal – e lucrativo,  ok – seria se houvesse um produto no mercado que trouxesse de volta momentos bons da vida para serem vividos novamente? Uma boa ideia, não? Porque tudo passa. E algumas coisas são tão especiais que seria legal se passassem de novo. Porque as coisas ruins passam, sempre passam, mas ninguém avisa que as boas também. “Calma, isso vai passar…”, diz o amigo consolador tentando ajudar naquele momento difícil, mas atenção: aqui entram os bons momentos também, já aviso. Não se deixe enganar. E foi assim que fui bombardeado por lembranças boas quase esquecidas em plena terça-feira, na av. Faria Lima. Foi água. Enquanto não inventam o tal produto, aguardemos.

Esperando pela próxima chuva.

 

Do Blog 9 Estórias

 

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Marcelo Jeneci | Maglore | Sobre Canecas e Chá

Sem Título

Escolha um emprego. Escolha um carro. Escolha uma esposa. Escolha uma vida. E depois, resigne-se. É a vida, feita de escolhas, e consequências. Um passo aqui para uma efeito lá. Pode parecer estimulante. Pode parecer desafiador. Ou, às vezes, deprimente. Ele decidiu não escolher coisa alguma. E esta foi a sua escolha. Sem razões definidas, sem explicações aparentes. Ele não precisava de escolhas para ser feliz. E não precisava ser feliz para continuar vivendo.

Autodenominava-se O Homem Invisível. Mas não era invisível. Pior ainda, nem era. Só existia porque estava consciente de sua existência. Mas, em um dado momento, chegou a se questionar: existia realmente? Fazia parte de um plano? Integrava um todo? E se fosse apenas o personagem de um livro? Ou, pior, o personagem de uma crônica postada num blog medíocre de um pseudo-escritor?

A vida continuava como um marasmo de cores nada vibrantes. Posto póstumo, um vazio lancinante lhe devorando a alma corrompida. Um emprego medíocre em um escritório qualquer. Sem família, sem raios de sol, sem perspectivas. Tão somente, ratos e restos.

Questionava-se, dia após dia, cada vez mais. Era real? Era músculos e vértebras, ou apenas rabiscos num papel?

Começou a olhar ao redor com desconfiança. Qualquer coisa poderia lhe indicar a natureza de tudo aquilo: realidade, ou apenas produto da mente de um lunático? Os detalhes denunciariam mentiras e verdades. E os detalhes mostraram, afinal, vez após vez, que tudo era irreal. Apenas esboços mal definidos publicados em algum canto.

Insatisfeito com seu rumo, decidiu ir atrás do seu autor. Do homem mal-humorado que lhe privava alegrias ou ao menos vicissitudes. Por que uma vida tão enfadonha? Por que nenhuma fragrância, nenhuma partícula ígnea de bem-estar? Não, ao contrário, sempre o opróbrio, o tédio de uma vida sem vida. Ar, onde fostes parar?

Na busca, alimentado pelos pensamentos inquietantes, logo o Homem Invisível estava dominado pelo ódio. Perdera o controle. Escapara das direções estabelecidas pelo seu autor. Improvisava. Agia por conta, sem dar-se um sentido. E começou a ganhar forma. Cheiro. Cor. Logo, visibilizou-se. Um ser atuante e perceptível.

Agora, figura existente, poderia se vingar daquele que o trancafiou num mundo sem perspectivas. O Homem Ex-Invisível só precisava de uma faca e um pouco de tempo para encontrar seu autor, seu facínora sem coração, e realizar sua vingança.

Encontrou-o numa quinta-feira, 19 de Julho, o pseudo-escritor distraído em seu computador, escrevendo mais um post sobre seu personagem desalentado. Ainda nem havia dado título ao post. Mas parecia rir. Ria da vida funesta com que fustigava o pobre coitado, personagem seu, criatura sua. Aproximou-se por trás do autor, sem ser percebido, salivando vingança, execrando os textos que integrara, suor e raiva pelos poros.

Ergueu a faca, e antes que o autor terminasse a frase…

Do Blog Literatura Corrosiva

 

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