Cambriana

Uma surpresa interessante e de uma qualidade absurdamente rara. A Cambriana surgiu, meio que de uma parceria entre dois amigos, Wanderson Meirelles e Luís Calil, sendo que as músicas do EP House of Tolerance, foram todas produzidas e mixadas em casa ou através de contatos pela internet, uma vez que Wanderson, morava em Brasília.

Radicados em Goiânia, a Cambriana é formada por mais três integrantes, sendo eles: Rafael Morihisa, Israel Santiago e Carol Steinkopf, que se desdobraram para produzir um álbum como poucos.

O interessante é que mesmo assim, feito meio que nas horas vagas, seu som não deve em nada para outras bandas gringas, uma vez que eles compõem basicamente em inglês, o que leva a uma fatídica pergunta: “Sério mesmo que isso é brasileiro?”. Existem momentos que você jura estar escutando algo bem familiar,  mas ao mesmo tempo, você tem certeza que é algo realmente diferente e espetacular.

O estilo da Cambriana é basicamente o Indie Rock, passeando por vertentes claras de um pop experimental interessantíssimo.

Chega de papo, e pra que você mesmo possa tirar suas devidas conclusões, separamos algumas canções para ecoar Gramofone à fora.

Aumente o som e deixe os acordes te levarem pelo som competentíssimo desses goianos, com Big Fish:

Sad Facts é algo transbordante, em musicalidade, sonoridade e qualidade, sendo, sem dúvida alguma, uma das melhores:

E essa é Astray, numa ótima versão ao vivo, captada na Ambiente Skate Shop, em Goiânia, há menos de um mês atrás:

Com certeza, o som da Cambriana é de uma força impar e irá ecoar bastante por todos os cantos, pois talento essa turma tem de sobra!

E aí? O que achou? Participe, comente e compartilhe!

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Ter ou não ter namorado? Eis a questão!

Quem não tem namorado é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabira, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Mas namorado mesmo é muito difícil.

Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio, e quase desmaia pedindo proteção. A proteção dele não precisa ser parruda ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.

Quem não tem namorado não é quem não tem amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento, dois amantes e um esposo; mesmo assim pode não ter nenhum namorado. Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche da padaria ou drible no trabalho.

Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar lagartixa e quem ama sem alegria.

Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade, ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de curar.

Não tem namorado quem não sabe dar o valor de mãos dadas, de carinho escondido na hora que passa o filme, da flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque, lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada, de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia, ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo, tapete mágico ou foguete interplanetário.

Não tem namorado quem não gosta de dormir, fazer sesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele; abobalhados de alegria pela lucidez do amor.

Não tem namorado quem não redescobre a criança e a do amado e vai com ela a parques, fliperamas, beira d’água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.

Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato de seu bem ser paquerado. Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir quem curte sem aprofundar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais.

Não tem namorado quem ama sem se dedicar, quem namora sem brincar, quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele.

Não tem namorado que confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.

Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando 200Kg de grilos e de medos. Ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesma e descubra o próprio jardim.

Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenção de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio.

Se você não tem namorado é porque não enlouqueceu aquele pouquinho necessário para fazer a vida parar e, de repente, parecer que faz sentido.

Atribuído a Carlos Drummond de Andrade, mas é de Artur da Távola