Feliz Ano Velho

A verdade é que o mundo acabou mesmo, sabia? Ele acaba e recomeça todo fim de ano. Nada começa sem que outra coisa termine, o fim está sempre a um passo do início. Não percebemos bem, mas basta um empurrão para ir de janeiro para dezembro, e vice-versa. O tempo é um eterno leva e trás, que carrega os instantes e deixa esse gosto de história mal contada sempre vivo na lembrança. É o fim que sempre começa de novo, de novo e mais uma vez, infinitamente. Muitos se apegam a ideia de que um novo ano trás infinitas possibilidades; pode até ser verdade, mas de nada adiantará ter um leque de versões de si mesmo, se não se livrar das amarras que te mantem preso ao rascunho inicial e mal esboçado que você já amassou e recolheu da lixeira várias vezes. Aproveite a deixa e se deixe ousar ser aquilo que realmente te motiva, aquilo que te excita, aquilo que te eleva, aquilo que te dimensiona, aquilo que te acelera, aquilo que te propulsiona. Não se apegue a mesmice! Fuja da superfície! Seja o novo que você tanto anseia. Seja aquilo que corre em suas veias!

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Um Conto de Ano Novo

Na noite de 31 de Dezembro Tristão acorda em sobressalto. Sonhava com um carrossel de cores quando um estrondo lhe atravessou a cabeça fazendo-o erguer da cama grande.
Tudo naquele quarto lhe parece grande e estrangeiro, paredes, portas, armários, mas o que sente não é exactamente medo. Mais uma saudade das cores do sonho. Ali, agora, tudo escuro e enevoado, como nos sonhos falsos dos filmes. Ele vira-se, desce da cama. Um miúdo de três anos e meio com uma cara clara e grandes, espantosos, olhos pretos.
No corredor, quadros com imagens de caça. Tristão pensa como são feios os rostos sem sobrancelhas dos cavaleiros. Para não ver mais nenhum, olha para baixo enquanto anda. Os pés descalços na madeira fria. Quando encontra uma porta, empurra-a.

A meio da sala, dá conta de ir a chorar baixinho. Esperava encontrar alguém depois da porta, mas não há ninguém. Nem a mãe, nem o pai. E, à medida que vai avançando para a outra porta, adensa-se o medo estremunhado no coração do miúdo. Por um lado, o choro ecoando naquele espaço. Por outro, o terror das coisas, tão quietas e imprecisas. A cadeira fora do lugar, o cinzeiro sujo. Tristão sente que, agora acordado, está dentro de um lugar muito mais vago e nevoento do que antes, quando sonhava. Um lugar vago e escuro e nevoento que é tal e qual um pesadelo.

Outra porta: luz, música. Homens com laços debaixo do queixo, mulheres com pescoços nus. Mostram-se espantados e alegres ao verem-no, mas são maus actores. E a luz é violenta, e alguém dá uma gargalhada grossa, e há o estrondo de bombas lá fora. Tristão não chora mais. Está em pânico, olhos perdidos. Vai atirar-se para o chão e enrolar-se sobre si próprio, fechado a qualquer palavra ou gesto, repetindo para dentro “não, não”.

Mas o mordomo da empresa de organização de eventos vale o seu peso em ouro. Pousa a garrafa de champanhe, pega no miúdo. Sorri aos convidados e sai com ele para a janela, para ver o fogo-de-artifício. “Estás a ver? É isto o barulho”, diz-lhe.

E Tristão serena porque pensa que aquelas cores explodindo na noite são tão parecidas com as do sonho, tão parecidas, que afinal talvez seja aquilo a “realidade”.

Jacinto Lucas Pires

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Um Novo Ano

“As pessoas esperam um Ano Novo. O ano também espera pessoas novas, com novas atitudes, novos pensamentos, novos conceitos, mas sem preconceitos, sejam eles reais ou ilusórios, análogos ou contraditórios, façam ou não sentido. Nesse novo ano que se inicia, seja a novidade que você deseja!”

É o fim do mundo? Não! É só o fim do ano! E o começo de tudo, de novo!

O fim e o começo. O velho e o novo. A renovação das esperanças, dos sonhos, dos caminhos e das oportunidades. Novos pensamentos, novas conquistas, novos desafios e novas decepções! Por que todos tem a ideia que não acontecerão problemas, se são os problemas que nos fortalecem e dão o sentido a vida? Já imaginou se não existissem transtornos? Você não saberia o quanto é realmente feliz! Sempre ficaria aquela sensação de falta, de perda, de incompletude. As tentativas falhas de prever o que vai acontecer, nos colocando em posição totalmente passiva em relação ao mundo em que vivemos…

2012 será o começo de um novo fim para muitos; aqueles que acham que são como folhas secas levadas pela correnteza. Afinal é mais um dias depois do outro, mas também não é só isso. Quem leva a vida como uma poesia preenchida por frases inúteis não tem muito o que temer. É só um ponto final. Mas para quem diz ter encontrado um sentido, um rumo certo, um foco, será o começo de uma nova etapa; dessas que se repetem a cada 365 dias, mas que são sempre compostas por acontecimentos diferentes.

A beleza do novo, do inesperado, do que ainda não veio é tão atraente quanto assustadora, pois nesse novo ciclo que se inicia, você pode tomar um monte de caminhos, alguns corretos, outros nem tanto, mas se errar a direção, fique tranquilo, a vida foi feita pra quem erra, pra quem nela se deita, se deleita, se faz ser, pois quem não arrisca, não experimenta, não sabe mesmo o que é viver.

“Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.”*

Nesse novo ano, o que mais importa é ser ou não ser. Pois então, seja e não espere que sejam por você.

*do poema “Receita de Ano Novo” – Carlos Drumond de Andrade


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