Crianças de Ontem, Crianças de Hoje

Por Isabella Bossi Fedrigotti, jornalista e escritora

O som metálico do sino era o sinal que menino Jesus tinha acabado seus trabalhos e nós crianças podíamos entrar – a noite de véspera – no salão iluminado somente uma grande árvore coberta de velas que difundiam um cheiro de cera misturado a pinho queimado. Para mim, será sempre o cheiro de Natal. Os presentes eram quase secundários em comparação à atmosfera de encanto e mistério que nos eletrizava e um pouco também nos assustava. Por isso, nós irmão tínhamos as mãos dadas, hesitantes sobre o batente da porta, deslumbrados com a vista da árvore decorada com fios de prata. Com a forte lembrança destas sensações, procurei criar o mesmo Natal a meus filhos, na mesma casa – dos avós – onde eu havia vivido. Ma talvez porque eu não havia a sabedoria  dos meus pais o talvez porque meus filhos eram diferentes de como eramos nós, não funcionou, não de verdade. Depois de pouquíssimas vésperas que deram certo, aconteceu que, por causa de um mexer de pacotes por parte de uma tia, sabe-se lá como intercedido pelas crianças, um deles vem até mim com o rosto fechado e diz: “Agora eu entendi porque os presentes dos primos são sempre mais legais que os nossos!”.

Retirado do Blog Viva Toscana

E esse fim de semana?

E esse fim de semana?

Qual?

Esse, agora! O que vai fazer?

Eu? Não sei! Por que tenho que fazer alguma coisa?

Ué! Mas amanhã é Natal!

Nossa! É mesmo né! E o que tem isso?

Não sei! Ando tão decepcionado com essas coisas de fim de ano!

É, eu também! Depois que descobri as reais intensões dessas comemorações!

É? E quais seriam?

Já reparou que esses dias as pessoas são praticamente empurradas a comprar?

Sim, não tinha pensado nisso!

Pois, então! A massificação das mentes quase te obriga a pensar como os outros e agir do mesmo modo!

Nossa, é verdade! Ontem mesmo comprei uma árvore de natal pra levar pra casa. O estranho é que nunca havia feito isso, não sei por que me deu vontade!

Não sabe por que? É o bombardeio da mídia, que te direciona a achar que precisa de coisas, que realmente não precisa!

Então, você quer dizer que o Natal é apenas uma festa do consumismo?

Não é isso, apenas! É algo mais velho do que qualquer um possa imaginar! Os antigos comemoravam as colheitas e rendiam louvores ao sol.

Vem cá? Você é ateu?

Não, por que?

Ah! Pensei que fosse, por suas ideias!

Minhas ideias? Francamente, não são ideias minhas, são a verdade!

Você sabe que a verdade é relativa, não é mesmo?

A verdade pode ser relativa, mas o que te disse sobre o Natal não é, não!

Como tem certeza?

Sabe, por que tenho certeza? Por que uma vez me contaram que existia um velhinho bondoso que distribuía brinquedos às crianças boazinhas, e depois de um tempo, descobri que, estranhamente, apenas as que os pais tinham dinheiro recebiam a visita daquele senhor. Aos poucos fui olhando para o lado e via que não tinha nada daquilo que eu via na TV. Neve? Rena? O que eu via mesmo, eram pessoas usando da data para falsamente cumprimentar os outros e se utilizando da data para maquiar o culto ao materialismo, enquanto outras se desfaziam das suas pequenas posses, pra não se sentir excluídas de uma festa que não foi feita pra elas!

Então, você não é cristão?

Claro que sou! Não é isso! E isso não tem nada a ver com o que estou falando!

Como não? O Natal é o nascimento de Cristo!

Sério mesmo? Você acredita nisso? Então, um Feliz Natal pra você!