A Pequenitude das Coisas Grandes

Lembro de uma fixação latente por mãos. Talvez ela nem saiba que tem mãos ansiosas. Ela não quer saber de uma porção de coisas. Talvez saiba demais. Talvez eu a tenha deixado saber demais. De boca fechada, meus olhos gritam mais alto que o barulho da tevê que ilumina o quarto. Lembro de fechá-los por vontade própria, a fim de que ela não me visse despido de tudo que eu crio pra que ela não preste muita atenção em mim.

Distrações. Uma grande orquestra tocando uma pequena canção. Detalhes singelos que ganham proporções quase épicas. As mãos ansiosas. Lembro de jogar pedras naquela janela para, quem sabe, enxergar através das brechas algo que me mostre que eu não sou o único perdendo a razão aqui, nesse sofá. Sinto que somos como dois carrosséis que giram em sentidos opostos. Eu não quero saber o que acontece quando estamos de costas um para o outro.

Há pouco estávamos aqui, enxergando um ao outro de uma distância que pode ser medida com os dedos de uma mão. Em meu carpete, marcas de sapatos que viajaram o universo procurando sentir aquilo. E eu senti tudo aqui, quieto. Fechava os olhos sempre que sentia os meus pensamentos tentando saltar através das órbitas. Tive medo de vê-los derramados pelos lençóis, de vê-la olhando atônita para aquilo tudo, como se não fosse capaz de ouvir os meus olhos gritando.

Já tive sentimentos imensuráveis. Imensurável também era tudo que vinha agregado ao fato de sentir algo que não cabe no peito. A orquestra foi perdendo, aos poucos, seus membros mais importantes, até que o desfalque era tamanho que me feria os ouvidos. Uma desafinada sinfonia, sem melodia nem cadência, conduzida por um maestro que não está mais lá. Hoje minha filarmônica ensaia um movimento diferente, que eu tento chamar, mas não consigo, de distração. Uma grande orquestra tocando uma pequena canção.

E a música dela é nova, é rara, é curta, e quase nunca toca no meu gramofone. Mas é no mesmo tom da minha. Ela parece não saber que cada nota ficou na minha cabeça, como uma partitura escrita pelas paredes da minha casa. Ela parece não querer saber. Mas cá estou eu, sempre falando um pouco demais.

Porra, guria. Porra. Quem te escreveu assim?

 

Lucas Silveira

 

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Fim de Peça

O pano caiu e as portas do teatro se abriram. A multidão foi em direção à saída com o mesmo desespero que se naquele mesmo teatro houvesse um homem-bomba ameaçando se explodir e levar todo aquele povo junto. Alberto seguiu o fluxo e desceu as escadas do teatro já com a chave do carro em mãos. Ele precisava ser ágil para que nenhum ator do elenco o visse saindo à francesa.

– Alberto?! – gritou uma voz feminina do alto da escada.

Ele fingiu que não era com ele e seguiu.

– Alberto Caldas Martinelli! – gritou a voz em alto e bom tom.

Todo o público que aguardava no hall de entrada ficou em silêncio e alternava a cabeça entre a mulher e Alberto. Ele ficou estático por alguns segundos no mesmo lugar e virou-se lentamente para a mulher com um largo sorriso no rosto.

– Alma! – gritou ele.

Alma estava ainda com a maquiagem e o mesmo figurino da sua personagem da peça. A atriz desceu a escada rapidamente, um pouco desajeitada e completamente eufórica, e abraçou Alberto.

– Querido, nem acredito que você veio! – gritou ela.

– Pois é, nem eu acredito. – disse ele retribuindo o abraço.

– Estou muito feliz. Obrigada por ter vindo.

– Imagina, obrigado você por ter me convidado. – retrucou ele.

Alberto sabia que mais cedo ou mais tarde a pergunta mais temida iria chegar. A conversa já se encaminhava para aquele momento e tudo indicava que ela estava próxima. Não deu outra. Alma soltou:

– E aí, o que achou? – perguntou ela entusiasmada com um sorriso incrivelmente assustador que ocupava metade do seu rosto.

Alberto engoliu em seco. Foram duas horas e trinta e sete minutos de peça. Ele perdera as contas de quantas vezes havia conferido o seu relógio para ver o tempo que ainda restava. Durante essas quase três horas, quarenta atores se revezaram no palco, sob a mesma luz!, com textos que não faziam o menor sentido. O ápice do espetáculo, para Alberto, foi quando uma senhora, com seus sessenta anos, na segunda fila, dormia com a boca aberta e uma mosca pousava perto de seus lábios ameaçando entrar.

– Fala tudo, Alberto! – disse Alma.

A vontade de Alberto era dizer toda a verdade nua e crua.

DIÁLOGO DOS SONHOS DE ALBERTO

Alma: E aí, o que achou?

Alberto: Horrível. Uma bosta horrível.

Alma: Tão ruim assim?

Alberto: Sim, tão ruim assim. Uma das piores coisas que eu já assisti na minha vida. Nunca mais me convide para assistir uma porcaria dessas. A peça é horrível. Direção fraca, texto fraco, elenco fraco. E você é péssima, Alma. Péssima. Desista disso tudo e vá buscar outra profissão, mulher! Você me irrita em cena até mesmo quando está calada. Essa sua obsessão em querer atuar e chamar mais atenção do que os outros é insuportável. Eu odiei. E quero meu dinheiro de volta.

Alma: Claro, como quiser. Peço mil desculpas, Alberto, por ter feito você passar por esta experiência tão ruim. Você será reembolsado.

Mas o diálogo dos sonhos era bem distante da realidade e possivelmente resultaria no fim da amizade de Alma e Alberto. Ele, portanto, fez um grande esforço internamente e soltou um sorriso forçado.

– Achei foda. – disse ele sorrindo.

Mas como esse tipo de comentário não sacia nenhum ator, Alberto sabia que a jornada estava somente começando. Alma insistiu:

– Tá, mas fala mais! – disse ela animada.

– Foda, foda, F-O-D-A. – repetiu ele tentando procurar outras frases ambíguas de impacto que pudessem ser ditas de forma sincera baseando-se em um dos sentidos delas. – Que texto foda. Até agora não consegui digerir tudo. – completou ele.

– Ai, sério, Albertinho?! Que lindo ouvir isso de você. Mas me diz, o que você entendeu daquela cena final da vela?

“Filha da puta”, pensou Alberto.

– Qual cena da vela? – perguntou Alberto fingindo não lembrar.

– A penúltima cena, que a menina sobe na cadeira com o lençol.

Alberto sabia exatamente de qual cena ela se referia. Era a cena mais longa e sem pé nem cabeça do espetáculo.

– Ah, sei. Impactante! Muito impactante. Um tapa na cara do espectador. – disse ele.

– Mas o que você entendeu? – insistiu ela.

– Ah, tanta coisa, Alma. Não é toda dia que se vê uma cena tão… tão…

Alberto tinha prometido para si mesmo que iria tentar até o seu limite seguir falando a verdade, mas nesse momento ele decidiu que era hora de chutar o balde e partir para os elogios mais mentirosos e comentários nonsense que iriam confortar o gigante ego da atriz.

– … uma cena tão bela. Aqueles trinta e sete minutos são incríveis. É um silêncio perturbador, mas ao mesmo tempo confortante, pois ele escancara toda essa amargura das personagens. E a vela… Ah, a vela! O fogo da vela representando a chama que existe acesa no coração da personagem é emocionante demais. Aquele lençol em que ela se esfrega durante VINTE MINUTOS representando a paixão pela arte é sensacional.

– Sim, era exatamente isso que nós queríamos passar nessa cena! – disse ela.

“Mentirosa.”, pensou Alberto. “Nem você entendeu absolutamente nada do que aconteceu nesses trinta e sete minutos. Aposto que estava angustiada deitada no chão revirando-se na coxia”.

– Bom, eu vou indo nessa. – disse ele. – Meu carro está no estacionamento aqui do lado e daqui a pouco eles vão fechar.

– Não, eles fecham só às 2h. – disse ela sorrindo.

Alberto olhou no relógio, ainda eram 23h50.

– Que sorte a minha! – respondeu ele.

– E o que você achou do espetáculo como um todo?

Um silêncio embaraçoso tomou conta da conversa. Alberto corria loucamente pelo seu insconciente à procura de alguma resposta esfarrapada que pudesse parecer franca, porém não encontrava. A este ponto, o silêncio já passava dos cinco segundos, o que numa conversa já pode ser considerado o que chamamos de “O Clássico e Belo Momento Constrangedor”. Alberto decidira quebrar o mais rápido possível:

– Que texto, hein? Que texto! Ele não me parece estranho. É um texto familiar. Quem é o autor mesmo? – perguntou ele.

– É um texto coletivo, é uma colagem de vários monólogos que todos os atores escreveram durante o processo.

– Ah.

Primeira bola fora.

– Tiro o meu chápeu pra vocês. Texto muito profundo. – disse ele com um sorriso amarelo.

– E o que você achou de mim? – perguntou Alma.

Pronto. A conversa havia chegado no seu ápice e no momento em que Alberto tinha tentado evitar durante todo o tempo. Pior que o texto da peça, somente a atuação de Alma. A atriz era péssima. Alberto sabia que por mais que ele tentasse mentir nessa resposta, tudo sairia de forma robótica e falsa e ela descobriria toda a farsa que aquele diálogo havia sido. E além disso tudo, Alma era amiga de Alberto. A conversa tinha chegado no seu segundo silêncio constrangedor, silêncio que nesse tipo de situação é inevitável. Nesta altura do campeonato, Alberto já pensava em fingir receber uma ligação urgente de sua mãe pedindo socorro ou algo trágico na família, mas ele concluiu que não conseguiria passar verdade e soaria mais falso do que responder à pergunta de Alma. Ele, portanto, prosseguiu:

– Você é diferente de tudo o que eu já vi. Nunca vi nenhuma atriz colocar tanta alma em cena. – disse ele. Alberto sabia que o trocadilho com o nome de Alma era algo que fazia a atriz ficar encabulada e boba.

– Obrigada, Alberto. É muito bom ouvir isso, ainda mais de você. Não sabe o quanto significa pra mim. E o que você achou daquela minha cena em que eu canto? – perguntou ela.

“Mas você é muito desgradaçada mesmo.”, pensou Alberto. Parecia um teste psicológio que Alma estava aplicando. A cena em que Alma cantava só não era a pior do espetáculo porque as outras cenas conseguiam ser tão ruins quanto àquela. A cena da cantoria causou vergonha alheia em Alberto e o fez agonizar na poltrona.

– Você arrebentou, destruiu, quebrou tudo naquela cena. – disse ele.

– Ah, você sempre tão generoso.

Ela o abraçou novamente.

– Agora eu realmente preciso ir, Alma. Preciso ir para casa, amanhã acordo cedo.

– Ah, que pena. Tudo bem. Vamos marcar alguma coisa durante essa semana pra discutir sobre a peça.

“Nem ferrando.”, pensou Alberto.

– Claro, vamos sim. – respondeu ele. – Tchau.

Eles trocaram beijos e Alberto foi em direção ao elevador com pressa.

– Divulga para os amigos! – gritou Alma.

“Não divulgo nem pra inimigo.”, pensou ele.

– Vou sim. Pode deixar! Parabéns pela peça!

E Alberto saiu correndo.

 

Thalles Cabral

 

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Todo Carnaval tem seu Fim?

Se conheceram num bloco de carnaval ao meio dia de uma quarta feira ensolarada. Tudo cheirava à festa e as pessoas tinham na cara e no jeito, aquele típico desespero de quem só tem um dia(o último) para brincar o carnaval, afogar as mágoas e exorcizar demônios.

Ela, vestida de anjo que caiu do céu, tinha todos os sonhos do mundo naquele coração rosa, e ele com a farda branca de um marinheiro envolto em mares de festa e bebida, parecia naufragado em suas dores e mágoas. Trombaram um no outro, assim, como quem não quer nada, mas logo em seguida se afastaram, em meio à multidão que cantava e ria e delirava, debaixo daqueles sons todos e daquele turbilhão de confete, serpentina e suor.

Era um emaranhado só: gente pequena, gente grande, gente bêbada e gente sã, sem contar aqueles que não eram nem mais gente e sim um turba de porquinhos cor de rosa, coelhinhas da playboy, cachorros, gatos, cobras e até um jacaré. Pois é! No Carnaval podia tudo, pois tudo era permitido. Mas foi só depois que rolou aquela briga entre o capitão e o palhaço que tinha tomado umas e dado em cima da colombina de vestido azul, que em meio aos cacos de garrafa e trambolhões ela disse: “Que carnaval mais violento minha gente, esse povo não sabe curtir!” enquanto ele de longe,a olhava pelo canto dos olhos e via embevecido, como ela ficava linda quando irritada, levantando a sobrancelha direita e fazendo biquinho.

E foi só aí que ele fez a única coisa que lhe restava fazer, e quando a banda tocou aquela música antiga que falava de amor e repetia no refrão que o bom da vida era ser feliz, ele tomou-a pelo braço e no enlaço festivo a cartada final: “Vem comigo que hoje o dia é nosso, a vontade de te beijar é grande e o mundo é pequeno pro meu desejo” . O que veio depois, foram beijos, abraços e amassos sobre um céu abrasador. E dançaram, festejaram, tomaram banho de champanhe e cobriram-se de serpentinas coloridas.

De tão envolvidos que estavam, nem perceberam o tempo passar e a noite chegar, trazendo com o seu manto o fim da banda, do carnaval, das colombinas e curtição.

E sem o carnaval a rua era só uma rua, os bichos viravam gente comum e até o palhaço não tinha mais graça, com seu sorriso pintado jazendo pendurado naquele rosto sem cor. A vida depois do carnaval era só a vida: Comum, real, profundamente palpável e indelével. E permaneceria assim, até quando o próximo carnaval chegasse e trouxesse novamente com ele, aquela outra vida, aquela outra realidade, aquela outra dimensão humana e onírica.

Manú Sena

Do Blog Poética Prosa

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