Músicas do Gramofone: Urubu Rei

Boas vibrações, galera gramofônica!

Há muito tempo estava querendo escrever sobre Ana Cañas e hoje enfim trago um som que se aproxima e se distancia de muita coisa ao mesmo tempo. Sinceramente, ao ouvir Canãs você tem a impressão que o seu disco é uma coletânea de duas ou três cantoras diferentes, tamanha é a ruptura que existem entre as faixas e principalmente entre as composições. Sua flexão vocal complementa a sensação com contornos diversos e dispersos que, camaleoamente falando, trazem o ouvinte a experimentar várias Cañas e várias Anas concomitantemente.

No caso específico de Urubu Rei, Cañas brinca com a voz e transmite uma áurea intimista, com nuances de um sarcasmo seletivo, mas que na realidade joga com as palavras de um modo intrigante.

Se quiser conhecer outras músicas, acesse o site oficial.

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Quem Sou Eu?

Quem sou eu?

Quando não temos nada de prático nos atazanando a vida, a preocupação passa a ser existencial. Pouco importa de onde viemos e para onde vamos, mas quem somos é crucial descobrir. A gente é o que a gente gosta. A gente é nossa comida preferida, os filmes que a gente curte, os amigos que escolhemos, as roupas que a gente veste, a estação do ano preferida, nosso esporte, as cidades que nos encantam. Você não está fazendo nada agora? Eu idem. Vamos listar quem a gente é: você daí e eu daqui. Eu sou outono, disparado. E ligeiramente primavera. Estações transitórias. Sou Woody Allen. Sou Lenny Kravitz. Sou Marilia Gabriela. Sou Nelson Motta. Sou Nick Hornby. Sou Ivan Lessa. Sou Saramago. Sou pães, queijos e vinhos, os três alimentos que eu levaria para uma ilha deserta, mas não sou ilha deserta: sou metrópole. Sou bala azedinha. Sou coca-cola. Sou salada caprese. Sou camarão à baiana. Sou filé com fritas. Sou morango com sorvete de creme. Sou linguado com molho de limão. Sou cachorro-quente só com mostarda e queijo ralado. Do churrasco, sou o pão com alho. Sou livros. Discos. Dicionários. Sou guias de viagem. Revistas. Sou mapas. Sou Internet. Já fui muito tevê, hoje só um pouco GNT. Rádio. Rock. Lounge. Cinema. Cinema. Cinema. Teatro. Sou azul. Sou colorada. Sou cabelo liso. Sou jeans. Sou balaio de saldos. Sou ventilador de teto. Sou avião. Sou jeep. Sou bicicleta. Sou à pé. Você está fazendo sua lista? Tô esperando. Sou tapetes e panos. Sou abajur. Sou banho tinindo. Hidratantes. Não sou musculação, mas finjo que sou três vezes por semana. Sou mar. Não sou areia. Sou Londres. Rio. Porto Alegre. Sou mais cama que mesa, mais dia que noite, mais flor que fruta, mais salgado que doce, mais música que silêncio, mais pizza que banquete, mais champanhe que caipirinha. Sou esmalte fraquinho. Sou cara lavada. Sou Gisele. Sou delírio. Sou eu mesma.

 Agora é sua vez…

Martha Medeiros

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Meus Primeiros Passinhos

O pó que flutuava pelo quarto naquela manhã de feriado rodopiava do topo do guarda-roupas ao chão, fazendo partículas de sujeira brilharem ao encontro das frestas de sol da janela. A música nos fones de Rita estava suficiente alta para que ela não ouvisse nem a própria voz esganiçando “Papa Don’t Preach” da Madonna. Desprovida de grandes pernas, subia numa escada de três degraus e espanava o interior do guarda-roupas. Descia, empurrava a escada para o lado e repetia o movimento.

Enquanto fazia a faxina, Rita separava as roupas velhas e tudo que poderia ser passado adiante. De cima das gavetas, próximo à caixa de jóias, puxou mantos, fronhas, um apanhado de meias e luvas velhas e até mesmo um vestido perdido, que não lhe servia mais. Junto ao que havia separado, jogou sobre a cama uma pilha de álbuns de fotografias da família. Parou momentaneamente o serviço, colocou o espanador no chão e desamontoou os álbuns. Rita tirou os fones e murmurou: “meus primeiros passinhos”.

– Augusto! – gritou ao marido, que lavava o carro no quintal. – Vem cá ver uma coisa.

O marido fechou a torneira da mangueira e entrou na casa com as mãos pingando. Secou-as na camiseta e adentrou o quarto.

– O que foi? – perguntou. – Precisa de ajuda? – Augusto examinou o cômodo minuciosamente, como um garoto tentando aprender a posição das cartas antes de virá-las no jogo da memória.

– Eu só queria saber se posso me desfazer de alguns álbuns. Não sei se ainda devemos guardá-los – sugeriu, com as mãos no ombro do marido.

– O que são essas coisas? – Augusto franziu o cenho e sentou-se na cama.

– São todas as nossas fotos, desde a época de namoro. Achei esses álbuns escondidos no guarda-roupas, bem no fundo – Rita pegou dois deles, um azul e um rosa, e indagou: – Podemos doar ou jogar fora esses?

– Claro que não! Eles também fazem parte…

Augusto segurou os álbuns e começou a folheá-los devagar, fitando os olhos e se distanciando mentalmente de sua esposa e de tudo ao redor.

– Mas Augusto… – suspirou Rita, incrédula. – Sei que são importantes pra você, mas querido, não faz sentido. Já faz tantos anos.

– Não, não podemos jogar fora. São os álbuns dos nossos filhos, a Bruna e o Pedro – sussurrou, levantando a cabeça e olhando Rita com um sorriso pequeno entre os lábios.

– Tudo bem, você que sabe. Vou colocar tudo embaixo da cama. Preciso esvaziar essa parte do guarda-roupas pra colocar outras coisas – conformou-se e rapidamente juntou os outros álbuns, recolheu as fotos avulsas que caíram pelo chão e empurrou-lhes por debaixo da cama de casal. – Depois você coloca esses álbuns aí também. Tenho que ir na Márcia, acho que ela vai gostar se eu der esse vestido pra ela.

Rita saiu apressada do quarto, com o vestido lilás nas mãos – ainda tinha muito o que fazer no feriado. Augusto, entre a poeira e as meias espalhadas pelo chão, esqueceu do carro ensaboado no quintal e dirigiu-se à janela do quarto. Abriu-a por inteira e tornou a folhear o álbum azul. Como se estivesse tocando delicadamente uma harpa, passava as páginas, até chegar ao fim. Pegou o álbum rosa e abriu-o numa capa, em que animais coloridos ilustravam o título “Meus primeiros passinhos”. Não havia fotos. Tampouco no resto do álbum; apenas espaços vazios onde deveriam haver fotografias infantis. No álbum azul também não havia fotos. Do início ao fim, do “Nascimento” ao “Natal em família”, eram apenas plásticos transparentes criando volume. Assim como as fotografias, não havia filhos, nunca houve. Augusto sempre quis um casal de herdeiros, mas não podia gerar sequer uma criança. Ao menos, ele tinha dois álbuns e imaginação de sobra para imaginar como deveria ser pai.

Thiago Dalleck

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