Uma vez era: a Guerra


Título Original:  Tempos de Horrores

Estávamos em plena segunda guerra mundial. Convocado, como milhares de outros jovens, eu fui integrante da Força Expedicionária Brasileira — FEB na Itália. Fiz parte do penúltimo contingente de tropas brasileiras enviado àquele país, em 23/11/1944, a bordo do navio «General Meigs». Formávamos o 4º Escalão, que, sob o comando do Coronel Mário Travassos, iríamos ser incorporados ao 4º corpo do 5º Exército americano. Nossa nobre missão era combater os grandes opressores: os nazi-facistas, que, como Alexandre e Napoleão, alimentavam o grande sonho de dominar o mundo e, assim, subjugavam, com violência e humilhação, os povos vencidos, espalhando o terror por a Europa, Ásia e África. Era a chamada a Aliança do Eixo, formada por a Alemanha, Itália e Japão. Quando chegamos, os italianos já haviam se rendido, desde 08/09/1943. O «Dute», Benito Mussolini, havia sido deposto e preso em 25/07/1943, e, posteriormente, libertado por os alemães. Seu paradeiro era ignorado. Havia ainda alguns rebeldes italianos, como os componentes da Divisão Barsagliari, que se juntaram aos nazistas e prosseguiam a guerra no norte da Itália. Em a verdade, não combatíamos a Itália, mas sim os alemães e um pequeno grupo de carcamanos. Os alemães estavam posicionados em pontos estratégicos, como os montes Belvedere, Gorgolesco, Mazzancana, La Torrachia, De ela Croce, Torre de Nerone, Soprassasso e, entre outros mais, o diabólico Monte Castelo, uma fortaleza natural inexpugnável. Essas defesas formavam a chamada «Linha Gótica», que ia desde Spezia, no mar Ligúrico, até Rimini, no mar Adriático, cortando o país de oeste a leste. O Brasil somente declarou guerra à Aliança do eixo, após muita pressão do governo americano. Por outro lado, diversos navios mercantes brasileiros tinham sido afundados por a marinha alemã, se não os foram por os próprios americanos, como se suspeita, para conquistar a opinião pública do Brasil e, assim, sem saída, Getúlio viesse a reforçar as tropas aliadas, que eram lideradas por a Inglaterra, Rússia e Estados Unidos. Assim foi que o governo brasileiro declarou guerra ao Eixo, em 31/08/1942, através do decreto nº 10.358. Mas esta declaração, apenas colocava o Brasil em estado de guerra, sem nenhum comprometimento no envio de tropas, o que a tornava numa mera peça de retórica. Entretanto, em 31/12/1942, Getúlio Vargas anunciou à nação que o país iria fornecer tropas suficientes para marcar presença nas batalhas que se travavam do outro lado do Atlântico. É de se esclarecer, que a Inglaterra, por o apoio que o Brasil prestara à Alemanha, não dera o seu total aval, olhando com desconfiança a participação do Brasil. Mas os ingleses tiveram que morder a própria língua, pois os brasileiros conseguiram um desempenho acima do esperado, com seus soldados mostrando bravura e sempre destemidos em cada batalha em que participaram. Haja vista a tomada de diversas posições importantes, como Lama de Soto, Monte San Quirico e Somocolonia e, posteriormente, a mais difícil batalha, o Monte Castelo, após quatro tentativas. Logo em seguida, caíram Castelnuovo e, numa das mais sangrentas batalhas depois de Monte Castelo, conquistávamos Montese e Sorreto. Conquistas que nos valeram muitos elogios do alto comando americano. Em o princípio de 1945, mais precisamente, em 15 de janeiro, ano em que a guerra finalmente chegou ao fim, saímos numa missão de patrulha, cujo propósito era fazer uma sondagem da área e marcar no mapa da região, possíveis movimentações das tropas inimigas. Éramos ajudados por os Guerrilheiros da Resistência Italiana, que conheciam, mais que qualquer outro, a área que iríamos explorar. O nosso pelotão, composto de 21 homens, quase na sua totalidade, inclusive eu, não tinha nenhuma experiência em guerrear. Eu nunca havia matado alguém e essa possibilidade me aterrorizava. Fomos acordados por o toque do clarim às 3 horas da manhã e, após um lanche rápido, iniciamos a caminhada para nosso destino, para o bem ou para o mal. Nunca se sabia antecipadamente para onde iríamos. Também pouco interessava, pois se havíamos de morrer fosse onde fosse seria um lugar como outro qualquer. Nosso treinamento foi conduzido por um sargento brasileiro da linha dura e supervisionado por outro sargento, de nacionalidade americana, igualmente durão. Ensinaram-nos que todos os alemães e italianos deveriam ser incondicionalmente mortos, pois eram inimigos e inimigo bom, era inimigo morto. O que me causava insônia e muita ansiedade, além daquelas geradas por a própria guerra, aliadas ao medo da morte, era o fato de termos recebido instruções de não fazermos nenhum prisioneiro naquela missão. Isso valia, mesmo, até para os casos de rendição. Deveríamos executá-los sumariamente, pois o Comando Geral não possuía espaço, nem prisões suficientes para mantê-los e alimentá-los. Era inverno e dos mais rigorosos. Tudo estava coberto por a neve. A nossa caminhada era muito dificultada por a lama que se fazia por a passagem de veículos e grupos de soldados pisoteando a neve mais rala, muitas vezes tornando-se tão escorregadia, que era como se estivéssemos caminhando sobre graxa, ou óleo. Tínhamos caminhado, mais ou menos uns 50 kms para o norte, já em território inimigo, quando fomos surpreendidos por uma tropa alemã e iniciamos um tiroteio tão intenso, que, ainda hoje, sou capaz de ouvir o som das carabinas, metralhadoras e granadas que explodiam seguidamente. Ouvia-se também a voz estridente e imperativa de nosso comandante, o tenente Souza, gritando que todos deveriam se deitar e se protegerem da maneira que pudessem e atirássemos contra os nossos inimigos, que eram mais numerosos que nós. Talvez três vezes superiores em números, armas e munições. Mate-os sem piedade, gritava desesperado o tenente, prometendo uma caixa de cerveja por cada alemão morto, como, se isso fosse o grande incentivo, que precisávamos naquele momento. E ainda enfatizava: «se for um oficial duas caixas»! Nossos companheiros iam caindo um a um e eu fiquei paralisado por o medo e o terror de toda aquela violência, quando, de repente, ouvi uma voz que dizia, calmamente: — Porra, queria morrer como o meu pai e estou eu aqui neste inferno che. Tanta tranqüilidade naquela voz me fez virar a cabeça e, do meu lado direito, estava um rapaz claro, de olhos azuis, com um cigarro na boca. E eu perguntei — Como morreu o seu pai? E ele me respondeu com a maior tranqüilidade: — Dormindo che! O único inconveniente — continuou — é que não sei dizer, se incomodou ele a gritaria do pessoal do hotel onde ele morreu. Intrigado eu lhe perguntei: — Por que estavam gritando? Ele sorriu e disse: — Porque estavam morrendo queimados, por causa do incêndio que meu pai causou — tornou a sorrir e continuou-estava fumando quando adormeceu com o cigarro aceso e morreu tostadinho, que nem churrasco queimado. Ele estava bêbado! Eu não pude resistir e tive que rir. Depois senti-me mal, pois nossos companheiros morrendo e nós ali contando piada e rindo. Era desumano, mas me tranqüilizou um pouco. Então ele me tocou o ombro e falou baixo, com a voz grave: — Tu tá vendo esse colega morto ai do teu lado guri? — Sim, respondi meio confuso. — Olhe para o pescoço do cara Che, tu tá vendo? Ele tinha um ferimento no pescoço e sua artéria havia sido perfurada e o sangue jorrava com um cano furado. Senti-me mau com aquela visão. Fechei os olhos, abaixei a cabeça e tive a sensação de que iria desmaiar. Foi quando o gaúcho me sacudiu e perguntou: — Vais desistir agora guri? Depois dessa batalha toda? — O que quer que eu faça? Não temos como enfrentá-los. Que tal nos entregarmos? Propus-lhe no desespero. E ele ainda na sua calma contestou: — Nem pensar che. Sabe o que farão com nós se a gente se entregar? Vão nos matar! — O que vamos fazer então? Perguntei sem esperança. — Pegue teu capacete e consiga a maior quantidade de sangue que puder desse amigo ai, que te mostrei e depois joga no teu peito simulando um ferimento e põe o capacete para o sangue se espalhar por a tua cabeça e rosto. Depois arraste o corpo e coloque ele atravessado sobre o teu e fique quietinho como se estivesse morto. Se possível nem respire. Se dermos sorte, vamos sobreviver. Haha! Sou foda meu guri. Irei fazer o mesmo com aquele outro amigo ali. Boa sorte! Fiz o que o gaúcho sugeriu, com muita repulsa. Mas tínhamos que tentar alguma coisa. Um dos alemães, saqueador filho da puta, chegou até onde eu estava, tirou-mo relógio do pulso e espetou a baioneta no corpo do soldado que estava sobre mim. Meu coração batia tão forte que fiquei com medo que o alemão pudesse ouvi-lo. Mas deu tudo certo. Eles foram embora e nos deixaram ali. E foi assim, que sobrevivi àquela minha primeira experiência num campo de batalha. Sei que não fui digno de uma medalha, nem, talvez merecesse estar vivo. Mas estava e, para mim, isto bastava. Estava com tanto medo, que só pude respirar direito, quando o gaúcho me sacudiu dizendo que já estávamos fora de perigo. Olhamos os nossos companheiros e estavam todos mortos. Éramos os únicos sobreviventes daquele embate terrível. Eu estava chocado e sentei-me numa pedra e fiquei ali observando aqueles corpos e pensando que há bem pouco tempo todos estavam vivos, andando, falando, fumando, enfim vivos … e, agora, somente aqueles corpos inertes. Foi quando o gaúcho me cutucou e perguntou: — Vais ficar ai o dia inteiro guri? Temos que ir. Vamos tentar voltar para o quartel general. Só que não iremos mais por a estrada, vamos por o mato, com muito cuidado, sem fazer barulho. Sei que lá a neve é mais densa, mas é por onde poderemos caminhar com mais segurança, pois assim não ficaremos expostos. Já havíamos caminhado bastante e eu estava deveras fatigado e esfomeado para continuar. Disse ao gaúcho que me deixasse pra trás, porque não tinha mais forças para continuar. Ele passando a mão por o queixo ficou me olhando e disse: — Ainda dizem que todo gaúcho é frouxo, che! E tu ai mortinho. Pensou um pouco e complementou — vê se consegue andar mais um pouco, temos que sair dessa clareira e acharmos um local melhor para passarmos a noite. E depois vê se conseguimos alguma coisa pra comer. Já estou faminto … Consenti com a cabeça, levantei-me e, com um esforço sobre humano, consegui me mover e fomos em busca de nosso «esconderijo prometido». E o gaúcho me incentivando, dizia: — Muito bem guri. Tu tá indo bem. Só um pouco mais e vamos nos aquecer. Andamos mais uns cem metros e avistamos uma caverna pequena. Bem apropriada, pois poderíamos nos esquentar. Já era noite cerrada, bem escura, e o frio aumentara muito. Com o vento a sensação térmica era de muitos graus abaixo de zero. Não sabia precisar quanto, mas o vento gelado feria como uma navalha cortando o meu rosto. Eu, carioca, acostumado a uma temperatura média anual de uns vinte e oito graus positivos, estava ali exposto àquele, que, reputo, ter sido o maior frio que já passei na vida. O gaúcho me pediu que conseguisse alguns galhos para servirem de lenha. Apesar de estarem todos molhados, úmidos, ele disse que eu conseguiria fazer fogo assim mesmo e deu-me seu isqueiro. Peguei tantos galhos quantos julguei suficientes para durarem a noite inteira e retornei à caverna. Olhei em todas as direções e não vi o gaúcho. Pensei: onde se meteu esse cara, será que me abandonou, eu o estava atrasando. Este pensamento me aterrorizava. Ele parecia ter experiência e tranqüilidade para sairmos de ali e, se ele tivesse ido, eu estaria perdido. De repente ele apareceu apressado e ofegante e, jogando gelo sobre a fogueira que, com tanta dificuldade, consegui aceder. Ai eu lhe perguntei: tá louco cara. Você apagou o fogo … e ele com o indicador nos lábios, emitia um siiiiiiiiiiiii, num pedido de silêncio e me confidenciou balbuciando, que ele havia saído para tentar caçar algum animal para comermos e viu uma tropa alemã. Mas que eu ficasse quieto, porque estavam indo em outra direção e a claridade da fogueira podia atrai-los e, ai seríamos mortos, fatalmente. Como vamos sobreviver esta noite com tanto frio e sem a fogueira? O gaúcho me olhou e disse: — Porra, não sou viado não, viu? mas acho melhor ficarmos abraçados, pois a temperatura de nossos corpos irá nos aquecer. Pensei um pouco e achei razoável e disse-lhe de gozação: — Só não vale é beijo na boca, ok? — Ok guri. Respondeu sorrindo. Abraçados, numa situação constrangedora, nossos rostos colados e eu sentindo sua respiração, fiquei bastante preocupado com o que aquele cara pudesse aprontar, enquanto eu dormia. Mas enfim tínhamos de nos aquecermos. Aquele foi o momento em que nos apresentamos, ele me perguntou: — Guri, tu não me disseste o teu nome. O meu é Marcelo, sou de Passo Fundo, Rio Grande do Sul. E tu? — Meu nome é Ricardo, sou carioca da gema — respondi-lhe — Tua mão ta quentinha? Quis saber o gaúcho. — Por que? Perguntei-lhe curioso. e ele disse: — porque tô com vontade de fazer xixi e minha mão ta tão gelada, que o meu pinto vai encolher tanto que não vai sair nada. Além disso corro o risco do xixi congelar.– explicou-me — Nem pensar numa coisa dessas seu puto. Já está se revelando porra. Acha que vou segurar seu pinto, cara. Tá fudido se depender disso.– fui enfático com ele. — Tá legal guri, vou segurar o possante com a ponta do casaco. Não sou o que você está pensando não, heim? Resmungou um pouco chateado. — Daqui a pouco vai pedir para a eu limpar o seu rabo também.– falei de gozação! — Isso tu iria querer não é? Porra agora que tocou nesse assunto me deu vontade de cagar. Como vou fazer com esse frio … falou colocando a mão na barriga e contraindo o rosto em sinal de dor. — Segura ai cara … deixa para a manhã quando o sol nascer fica mais fácil.– Ri da desgraça do meu amigo que ajudou a salvar-ma vida. Em este momento ele começa a soltar gases tão fedorentos que, sinceramente, tive vontade me entregar aos alemães. O sono estava difícil, não achava uma posição confortável para descansar o corpo, que estava tão moído como se tivesse sido atropelado por um tanque. Além do mais, toda vez que fechava os olhos me vinha à mente toda aquela carnificina. Meus colegas tombando mortos isso não me permitia dormir. O gaúcho, percebeu a minha inquietação e me gozou dizendo: — Porra, estava pensando em minha guria e você ai se mexendo desse jeito vai me deixar todo excitado. Hahahaha. — Não fode gaúcho — respondi um pouco chateado. O gaúcho quis saber sobre minha vida antes da guerra e sobre a minha família. — Bem, eu me formei no final do ano passado. Estava trabalhando com o meu pai. Ele tem um armazém de secos e molhados. Sou o caçula de uma família pequena. Somos três filhos somente, eu e duas irmãs. Minha mãe faleceu quando eu ainda era jovem, tinha 14 anos. Ela teve uma embolia. Meu pai nunca mais se casou.– contei-lhe. — A minha família che, é bem grande. Somos em dez. Também sou o caçula. Acho que só chamaram os caçulas. Os nossos colegas mortos, eu conhecia muitos de eles, já estivemos juntos em outras batalhas, muitos eram caçulas também. Tenho visto muita gente passando dessa para a melhor — disse com ar sério — e ainda, se o Criador permitir irei ver muitos. Não que eu queira isso, mas é inevitável, não achas guri? — Sim — respondi com uma certa tristeza — não sei por quanto tempo irei suportar essa guerra. — Esta á sua primeira batalha não é? Notei, pois você ficou como eu fiquei nas primeiras vezes em que estive nessa situação, no meio de um tiroteio.– falou com o olhar fixo no nada. — Então não é porque eu sou covarde, não é?– demonstrei a minha preocupação. — Claro que não guri — respondeu amenizando minha tensão. Contamos casos e piadas por a noite a dentro. Hoje me sinto culpado, pois o mundo estava se esfacelando por toda Europa e a gente rindo. Mas valeu pra descontrair. O gaúcho era uma pessoa muito engraçada. Alguns casos, passados na roça, eu nunca mais me esqueci. Contou-me que ao seu irmão mais velho, Cláudio, que à época era ainda uma criança, coube a missão de levar uma cabra de raça, que pertencia ao seu pai, para cruzar com o bode, da mesma raça, de propriedade de um vizinho, a alguns poucos quilômetros de ali. Seu pai preocupado com o que o garoto iria assistir, ligou para o seu amigo e pediu-lhe, para evitar que seu filho perdesse a inocência, que confirmasse o que ele havia dito ao garoto, que o bode e a cabra iriam apenas conversar. Assim, Cláudio levou a cabra e, quando retornou ao sítio, seu pai curioso para saber se houve o cruzamento, perguntou ao garoto: — Então filho, o bode conversou legal com a cabra? E o garoto respondeu de pronto: — Olha pai, conversar eles não conversaram não, porque o bode andou falando algumas coisas com a cabra e, como ela não entendeu, ele deu uns espirros, pegou um lápis vermelho e escreveu tudo na bunda de ela … Não consegui me conter … rimos demais. Sabia que era invenção daquele gaúcho, mas naquele momento foi muito engraçado. E, assim, conversamos a noite inteira e ele me contou quase toda a sua vida, a maioria passada no sítio da família. Ele havia estudado até o 2º ano de odontologia. Era o seu sonho interrompido. Quanto aos meus sonhos lhe contei que, minha grande ambição, seria entrar na faculdade federal de medicina. E, já muito cansados, conseguimos dar uma cochilada. Bem o dia raiou e eu ainda estava sonolento, quando o gaúcho me acordou, dizendo: — Oi guri tu não via dormir o dia todo não é? Temos que partir. — É verdade, mas estava muito cansado, ou melhor, ainda estou e o frio não me anima a sair desta toca.– disse brincando. Espreguicei-me e fui logo me levantando, dei uns pulos para aquecer-me um pouco, mas de nada adiantou. Entretanto, o que mais me perturbava era a fome que sentia. Vi um coelho a uma certa distância e mirei minha carabina, quando, de repente, uma mão segurou o cano e me repreendeu de forma veemente: — Estais louco guri. Queres chamar a atenção dos inimigos? Eles podem estar bem aqui perto. — Mas, então como vamos nos alimentar?– questionei chateado, pois havia perdido a minha caça. — Calma, não te apresses guri, vamos achar alguma coisa pra comer — tentou confortar-me. — Ok — consenti um pouco desolado. Reiniciamos nossa caminhada com destino ao Quartel General. O gaúcho havia pegado a bússola do tenente Souza e nos guiávamos por ela. Depois de umas duas horas de caminhada, chegamos a uma clareira, próximo a um rio congelado, onde avistamos uns cadáveres, possivelmente de italianos da resistência, pois não estavam uniformizados. Meu amigo gaúcho olhou para os cadáveres, pensou um pouco e perguntou-me: — Ainda estás com fome, che? — Sim estou faminto e fraco para agüentar a caminhada neste ritmo que você me impõe.– respondi num tom de reclamação. Então ele tirou a faca da cintura e disse-me: — Vamos nos alimentar agora.– e tirando as calças do italiano, foi cortando a sua coxa e colocando a carne dentro do seu capacete. Eu fiquei ali estático, horrorizado com aquilo que eu estava prestes a observar. Depois de tirar, praticamente, toda a carne das coxas do cadáver, ele sentou-se confortavelmente e começou a saborear aquela iguaria feita de carne humana. Em esse momento eu, em tom de revolta, lhe disse: — Você agora enlouqueceu de vez? Como pode comer carne humana? Isso é canibalismo, coisa de selvagem. E, além disso, é nojento. Você comendo defunto. Eu não vou fazer isso de maneiras nenhuma. É asqueroso este seu gesto-gritei num tom de revolta. Então o gaúcho, que ficou com a carne na boca me ouvindo, começou a ter ânsia de vômitos e seu estômago devolveu toda aquela carne mastigada, que ele aparou com o seu capacete. Depois de alguns minutos ele colocou o dedo dentro do capacete, naquela sopa nojenta, repulsiva e exclamou: — Porra guri, agora está quentinha! E a comeu numa voracidade de uma hiena. Agora era a minha vez de passar mal. Vomitei bastante e ai disse para aquele gaúcho sem escrúpulos: — Come o meu vômito também, seu puto, porco nojento. E ele com aquela sua calma de sempre, me respondeu: — De jeito nenhum, guri. Tu não comeste nada desde ontem pela manhã, então teu vômito não tem nenhuma sustância, não vai me valer de nada, prefiro o cadáver daquele carcamano. Depois disso fiquei mais fraco, mas criei uma força indescritível, pois mesmo, muitas vezes, cambaleante, consegui chegar ao Quartel General e me alimentei devidamente. Mas toda hora me vinha aquela visão e tinha ânsia de vômitos. Esta passagem eu nunca mais me esqueci. Ficou gravada para sempre. Eu e o Gaúcho ficamos muito amigos, mas eu fui ferido numa nova patrulha e foi recomendado por os médicos aos meus superiores a minha dispensa da guerra, pois a minha recuperação seria lenta. Teria que fazer inúmeras seções de fisioterapia, para recuperar a minha perna. O gaúcho me visitou algumas vezes no hospital. Assim ferido, retornei ao Brasil e fiquei livre do pesadelo. Ou melhor da guerra, não do pesadelo. Sobre o meu amigo gaúcho, soube que lutou a grande batalha da conquista do Morro Castelo, em 21/02/1945 e recebeu a comenda de herói. Depois disso, nunca mais tive notícias de ele. Os outros amigos que perdi, hoje seus nomes figuram no Monumento aos Pracinhas, no Rio e, sempre que posso, dou uma passada lá e rezo por eles. Em as minhas orações sempre incluo o gaúcho, por via das dúvidas!

Autor não Mencionado – Retirado de um fragmento presente nesse endereço: http://www.linguateca.pt/floresta/ficheiros/amazonia3.txt

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