A Moda Agora é Ser Hipócrita


Há alguns meses em que me deparo pensando, frequentemente, em um determinado assunto. Não sei bem o porquê dessa tal frequência, talvez pelo fato dessa nova Era estar escancarada nas redes sociais. Talvez. Inicialmente já quero deixar claro que essa forte ‘inserção’ virtual da grande parcela da população brasileira, de uns tempos para cá, não é e nem tem o objetivo de ser o foco desse texto, tampouco alvo de debates. Acho tudo muito bonito. Essa globalização, fluxo de informações, esse grande ‘status online’ em que as pessoas estão ‘se configurando’. A tecnologia avança e juntos nós a seguimos. Acho ótimo também que as pessoas participem de redes sociais, interajam, tenham contato com notícias do mundo todo e possam, por fim, expressar-se e formar uma opinião acerca de diversos assuntos. A questão não é essa, é outra.

Com essa inclusão virtual, e esse rápido acesso aos conteúdos, o país ficou ‘menor’, as pessoas tornaram-se mais críticas e, consequentemente, mais expostas. Tomei a liberdade de colocar abaixo um texto que um amigo meu, Diego Gianni, publicou certo dia no Facebook sobre as redes sociais.

Não faz muito tempo (aqui no Brasil, pelo menos) que acessar o Orkut era tão natural quanto entrar na conta de e-mails. Você sentia necessidade de entrar no Orkut (todo santo dia, logo pela manhã) para ver se tinha algum scrap novo, ou mais que isso, verificar se alguém havia deixado um depoimento para você. Era um vício, uma novidade! Agora, basicamente o Orkut é interessante apenas pelas comunidades que reunem coletâneas de músicas, filmes e seriados para serem “compartilhados”. Apenas isso. Você entra na página de recados e encontra cartões enviados automaticamente com alguma mensagem sentimentalóide e ursinhos de fundo (enviados por alguém que provavelmente ainda não migrou para o Facebook). O Orkut não morreu, mas se tornou um amplo cemitério virtual composto por membros que partiram rumo ao facebook, e consequentemente, a orkutilização do facebook. Não acho que o foco da discussão seja exatamente as ferramentas que esta ou aquela rede social disponibiliza e o quanto ela pode ser eficaz ou brega, mas sim, o USO que as pessoas fazem das redes sociais. Tudo o que envolve redes sociais pode ser analisado dentro do âmbito da sociologia, da cyber cultura, do comportamento humano em geral, e claro, por gente que estuda e trabalha com isso e pode opinar muito melhor do que eu. Mas tenho uma opinião (que é mais uma impressão) do que as redes sociais significam: com elas, aumentou-se o número de pessoas que julgam. É, deveriam incluir mais um botão no Facebook…Fulano de tal “julgou” isso. É o que falta.

É isso: as pessoas julgam mais, criticam mais. Ou não. Ou esses julgamentos sempre existiram e só veio a ser compartilhado agora, com a internet. Você pode dizer “ah, mas é ótimo que as pessoas tenham um senso crítico e opinem nos assuntos!”, sim, é ótimo, porém os comentários muitas vezes são feitos sem nenhum tipo de “análise”. As pessoas lançam suas opiniões sem nem ao menos tentar entender o outro lado da moeda, ver a mesma situação por um outro ângulo, o que resulta em muitos julgamentos injustos e baseados no senso comum. E se não bastasse tudo isso, as pessoas misturam tudo. Tudo vira uma bola de neve e vence quem por mais lenha na fogueira. Um exemplo claro disso foi o episódio que envolveu o nosso ex-Presidente, Luís Inácio. Gilberto Dimenstein, colunista da Folha.com, chegou a publicar um artigo chamado “O câncer de Lula me envergonhou”, no qual eu apresento logo abaixo, fazendo dele as minhas palavras.

Senti um misto de vergonha e enjoo ao receber centenas de comentários de leitores para a minha coluna sobre o câncer de Lula. Fossem apenas algumas dezenas, não me daria o trabalho de comentar. O fato é que foi uma enxurrada de ataques desrespeitosos, desumanos, raivosos, mostrando prazer com a tragédia de um ser humano. Pode sinalizar algo mais profundo. Centenas de e-mails pediam que Lula não se tratasse num hospital de elite, mas no SUS para supostamente mostrar solidariedade com os mais pobres. É de uma tolice sem tamanho. O que provoca tanto ódio de uma minoria? Lula teve muitos problemas –e merece ser criticado por muitas coisas, a começar por uma conivência com a corrupção. Mas não foi um ditador, manteve as regras democráticas e a economia crescendo, investiu como nunca no social.
No caso de seu câncer, tratou a doença com extrema transparência e altivez. É um caso, portanto, em que todos deveriam se sentir incomodados com a tragédia alheia. Minha suspeita é que a interatividade democrática da internet é, de um lado, um avanço do jornalismo, e, de outro, uma porta direta para o esgoto do ressentimento e da ignorância.

E não para por aí. Outro episódio foi a morte da cantora Amy Winehouse, enquanto muitos lamentavam a perda nas redes sociais, havia o grupo que publicava imagens e textos do tipo “Milhares de crianças morrem todos os dias na África e você não dá a mínima importância”. Semana passada houve o caso da enfermeira que espancou um yorkshire, e em questão de segundos o vídeo do ocorrido se espalhou por todas as redes sociais, juntamente com a indignação de milhares de usuários contra a enfermeira. Logo depois do caso ter ganho uma maior proporção na mídia, o mesmo grupo já soltava “Corrupção, pobreza, violência e ninguém faz nada. Um cachorro morre e todos decidem ser heróis”. São coisas diferentes em proporções diferentes. As pessoas conseguem confundir “divulgação de injustiça” com “não dar a devida importância para os problemas do mundo”. Isso já é gostar de ser ignorante. É gostar de ignorar e ainda polemizar.

As pessoas criticam se você critica, e criticam se você também não critica.

Quando entro no Facebook e vejo milhares de imagens sendo compartilhadas na minha timeline, tenho a impressão de que muitas pessoas vão ‘construindo’ suas personalidades ao clicar em compartilhar uma imagem. “Essa pessoa é contra isso…”, “Sou a favor daquilo”, tudo isso soa como uma espécie de autoafirmação. E às vezes, não sei você, mas eu tenho repetidamente o mesmo pensamento “que engraçado essa pessoa publicar isso, até semana passada ela fazia simplesmente o contrário” ou “mas ela nunca acreditou nisso”. É aí, meu caro amigo, que entra a hipocrisia, que sempre esteve presente, porém nunca de uma forma tão explícita como atualmente. Fingir ter certas virtudes, ideais, crenças, sentimentos, quando na verdade não possui, agora virou moda. Claro, tudo por um perfil bonito e politicamente correto no Facebook.

O Facebook já virou uma espécie de caixa de entrada de e-mail com correntesspampowerpoint’s chatos ‘divertidos’ e reflexivos. Um lugar onde tudo vira piada e merece ser compartilhado. Um lugar onde opiniões são bombardeadas. Um lugar onde a hipocrisia reina. Um lugar onde vale tudo.

Somos todos hipócritas, você precisa apenas decidir em qual nível.

Thalles Fontana

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6 pensamentos sobre “A Moda Agora é Ser Hipócrita

  1. Alejandro Javier disse:

    Hipocrisia!!! Capaz!!! Hehe. Isso não existe. Capaz, estou brincando, mas já presenciei outras épocas em que também a hipocrisia era a moda do momento. Abraço, e vamos ser nós mesmos, porque no fim, a tendência dos hipócritas é se desviarem dos seus propósitos, não serem felizes porque a princípio, não são eles mesmos.

  2. Luciene disse:

    Se as pessoas gastasse o mesmo tempo para publicar a verdade, uma palavra amiga ao invés de difamar alguém, o mundo seria melhor, e as pessoas teriam mais prazer de viver nele, mas estamos atolados em mundo sem amor e respeito onde acusar e não procurar saber o certo a respeito de alguem antes de lançar qualquer comentario tornou-se vantagem no meio social. Mas este tempo já esta previsto por Jesus, pois no livro de 1° Timoteo no capitulo tres esta escrito que o amor desapareceria e os homens seriam amantes de si mesmo, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus, e isto tem se cumprido, os homens se tornaram insenciveis, lançadores de senteça, descumpridores da lei de Deus, por isso todo esta deste jeito, literalmente estamos perto do fim.

  3. Se tem uma coisa que eu considero como hipocrisia pura é o funk carioca, isto é, o funk proibidão. Essa porcaria só sabe falar de sexo explícito e apoio à criminalidade e nunca fala de nenhuma coisa concreta. E quanto ao funk melody, que é um funk mais sensato e só fala de coisas mais amenas, como o amor verdadeiro, está sendo descartado, pois parece que o público imbecil de hoje em dia só quer saber de putaria. O Funk Melody é que é o verdadeiro funk brasileiro, não esse lixo imoral, oras!! Rock tem altos e baixos, mas nunca perdeu a graça. E quanto aos que curtem proibidão, eu lamento ter de dizer isso, mas eles são uns IDIOTAS, BURROS, DEMENTES, HIPÓCRITAS!!

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