Gravi Leve


Toda convivência é forçada.

Devemos conviver com este e todos os outros mundos possíveis onde tudo acontece, aconteceu e acontecerá o tempo todo. Se a possibilidade existe, a tenha como certa. Acasos infortunosos jamais são acasos, são resultados de uma displicência que talvez pudesse ter sido evitada. Estes são pensamentos retilíneos e é neste espaço precisamente que se aprofunda meu derrotismo incorrigível. No entanto, é curiosamente neste mesmo espaço que minhas fantasias florescem, do modo mais irrestrito possível.

O drama é patético e tudo o que ocorre beira à loucura.  E não é bom nem ruim que seja assim. Tudo isso que ocorre na ponta de meus dedos, por entre minhas impressões digitais, independe de mim, do meu querer, das minhas vontades. E são padrões que se repetem como se para me ensinar que não há controle, que meus desejos não serão atendidos, que não terei tudo o que quero por inteiro, mas sempre pela metade. O que se tem: uma porta meio aberta, uma lua meio cheia, uma meia-luz. É meio cinza, é meio tom. Isso é por toda a vida.

Ambiguidades, mistérios, entrelinhas, meias palavras, segredos, dissimulações, a certeza da incerteza. Transparência é ilusão e exigir isso sim é que é considerado a verdadeira loucura. A verdadeira transparência é a opacidade que pode ser variável, mas que jamais é finalmente descoberta, e que nunca estará inteira, e que nunca se completa. Como uma nudez vestida ou uma vestimenta nua. Exige-se o paradoxo, o desconhecido, o que jamais poderá ser atingido ou alcançado. A falta de beleza, a falta de caráter, a falta de personalidade: é só escolher a nuance. Elas são muitas e o mundo é mesmo muito ruim. Logo, entedia-se rapidamente.

Puxa-se a corda: o Desejo – de morte, de vontade – reside entre todas essas histórias vividas, não-realizadas, fantasiadas e, principalmente, derrotadas. Este Desejo alimenta-se vorazmente de todas elas, no entanto, curiosamente não sacia-se com alguma sequer. Deseja-se a morte, enfim. Na verdade mais pela falta de saciedade do que por sentir-se farta de tudo.

Solta-se a corda:  por muitas vezes subestimei o poder da Palavra. Uma fábula, simples, inesperada, mas nem por isso menos real. A Palavra ensina a sinceridade e a entrega, sem qualquer tipo de formalismo ou dependência. Um mundo quase inimaginável de liberdade, em um mapa que jamais vi. Não existem conselhos, perguntas, promessas, cobranças, nem rancores.

Fazer bem: se houve algum sentido, foi este.

[As cordas ressoam, em uníssono: neste caso, naquele caso, em outro caso, no próximo, no anterior, etc.]

Esta Palavra é de uma leveza opressora, quase totalitária.

“Que a vida continue cheia de encantadoras incertezas, como um sorriso inexplicável”. Isso que é tão frágil, tão instável e efêmero, quase insignificante, me ensina repetidamente a permanecer e principalmente em acreditar em outros mundos, apesar do meu. A lição não é nova e está cravada em pele, há anos: não há nada a se perder. E a partir disto, tudo está (é) perdido, para sempre. A partir disto, tudo está (é) indefinido absolutamente, e para sempre.

E isso me corrompe.

E me liberta.

Do Blog Crônicas Atípicas

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