João da Caatinga e o Pé de Feijão


*Uma versão da antiga fábula, que, se não tinha nexo, muito menos o tem agora*

Na infância, em algum lugar tórrido do sertão nordestino, João, o lavrador, filho de Cícero, o lavrador, neto de Lourival, o lavrador, bisneto de Pedro, o lavrador (a assim ad infinitum), era uma criança muito curiosa. Analisava as potencialidades de todas as coisas que suas desmioladas mãozinhas conseguiam alcançar.

(É interessante ressaltar aqui que, até onde consta ao autor da fábula, todas as mãos são, de fato, desmioladas, sendo que essa expressão foi usada com o único objetivo de esclarecer que as pequenas mãos de João estavam coladas a um corpo cujo cérebro não parecia funcionar da maneira mais adequada. Mesmo porque ter miolos nas mãos deve ser algo bastante desagradável, principalmente no frio ou quando o indivíduo acidentalmente martelar um dedo.)

Feito esse E.E.E.(Esclarecimento Espantosamente Esclarecedor) voltemos à fábula novamente, ainda mais se considerarmos que o custo atual de produção de uma fábula é uma fábula

Certo dia, então, João, o futuro lavrador, vislumbrou em cima da estante de Cícero, o lavrador,seu velho pai, um saquinho de couro amarrado com um laço vermelho. Imediatamente o misterioso receptáculo tornou-se objeto de desejo do infante delinqüente.

No saquinho encontravam-se quatro grãos de feijão mágico importados da china por uma ninharia e trocados pela cabra da família.

Cícero, o lavrador, pai de João, o futuro lavrador, queria seguir os passos de seu pai, Lourival, o lavrador (que seguiu, por sua vez, os passos de Pedro, o lavrador, bisavô de João, o futuro lavrador), e incrementar a roça da família, de modo que João, o futuro lavrador, pudesse passar para seu filho, “seja qual fosse o nome dele”, o lavrador, colheitas mais fartas, podendo inclusive vender o excedente na feira pública do miserável lugarejo, dando, enfim, sentido ao título de “lavradores”, que a família a tanto usava, mas que na prática não praticava, embora na teoria, teorizasse.

Assim, em sua rural lógica, a cada ano, a desventura deles diminuiria, e, quem sabe, um dia eles poderiam parar de comer sopa de calango e passar a comer suculentas buchadas de bode.

Mas dona Maria, mãe do então pequeno João, o futuro lavrador, esposa de Cícero, o lavrador, nora de Lourival, o lavrador, ao saber da bizarra troca, enfureceu-se. E do alto de seu metro e meio esbravejou:

– Ô, Seu fio di um bódi! Cabra safado! Cê trocô nossa cabrinha por esses punhado di feijão perebento! I agora como é que vâmo dá di cumê pros nosso doze fio, seu cabra safado? Mas cê é mesmo um jegue, Cíço!

Cícero, o lavrador, filho de Lourival, o lavrador, pai do João, o futuro lavrador, somente escutava e meditava na provável besteira que havia feito.

Enquanto isso, João, o futuro lavrador, aproveitando-se da bagunça que se instaurou, subiu sorrateiramente a instável e rústica estante e, esticando-se ao máximo, alcançou o saquinho dos feijões.

Desceu dali como uma cabra montanhesa, abriu a pequena bolsa de couro e imediatamente passou a brincar no chão com os quatro feijões.

Um, no ato, ele arrebentou com uma queixada de jumento. Outro ele tocou pela janela, sendo imediatamente devorado por um urubu (em tempos de crise urubu come até feijão mágico).

O terceiro foi salvo por Cícero, o lavrador, filho de Lourival, o lavrador, em cima da hora, pois João, o futuro lavrador, já se preparava para engoli-lo.

Cícero ainda procurou pelo quarto feijão mágico em toda a casa (coisa que não foi difícil, já que era minúscula), sem sucesso.

– Óh, xente! I agora, meu Padimpadiciço? Joãozinho estropiô com os feijão! Sobro só unzinho!!! ¿ Descabelava-se Cícero, o lavrador, filho de Lourival, o lavrador, neto de Pedro, o lavrador, e pai de João, o futuro lavrador e atual peso morto e meliante da casa.

Dona Maria, esposa de Cícero, o lavrador, nora de Lourival, o lavrador, e mãe de João, o futuro lavrador, aproveitou a cena para descer ainda mais a lenha na cabeça de seu marido.

Após muito ouvir, mas ainda esperançoso, pegou o único feijão que lhe restara e o plantou no seco solo, regando-o de esperança, porque água não havia mesmo.

Obviamente não nasceu, pois, segundo o manual internacional de plantio de feijões mágicos, publicado pela editora Vadirretro e distribuído fabulosamente bem (o qual Cícero, o lavrador, filho de Lourival, o lavrador, neto de Pedro, o lavrador, e pai de João, o futuro lavrador, obviamente não leu, já que era genealogicamente analfabeto), tais leguminosas encantadas precisam de muita umidade para germinar, coisa que foi devastadora para a família, já que ficaram sem os feijões e sem a cabra. Tais acontecimentos foram quase tão malignos, nefastos e perniciosos quanto os políticos da região.

Todavia, como tudo se ajeita quando nada se rejeita, bastou Cícero, o lavrador, mandar quatro irmãos de João, o futuro lavrador, para que trabalhassem quebrando pedras para o explorador de trabalho infantil mais próximo que a situação voltou para como estava antes, bem ruim, porém sobrevivível.

Mas os anos passaram, e João, o futuro lavrador, tornara-se enfim João, o lavrador, dono de seu próprio pedacinho de terra seca, em outro canto daquele interminável despovoado.

Sua roça, miserável como foram as de seus ancestrais, agora ao menos era sua. Certamente isso pouco significava naquela terra ressequida, mas João, o lavrador, filho de Cícero, o lavrador, neto de Lourival, o lavrador, e bisneto de Pedro, o lavrador, era dono de uma esperança sem limites e de uma teimosia forte como a das mulas.

E tão louca era sua teimosia, e tão ilimitada era sua esperança, que todos os dias ele aguardava pela chuva, redentora chuva que iria lavar seu solo e sua alma e lhe remiria dos anos de sofrimento e penúria.

É bem verdade que João, o lavrador, filho de Cícero, o lavrador, neto de Lourival, o lavrador, e bisneto de Pedro, o lavrador, somente havia visto a chuva uma vez em sua vida, alguns meses antes de Cícero, o lavrador, seu pai, ter adquirido os feijões mágicos, que tão diligentemente seriam destruídos alguns minutos depois.

De lá para cá (ou de cá para lá, já que o efetivo tempo é o mesmo de trás para frente ou de frente para trás) João, o lavrador, somente via água no poço (e de vez em quando, pois estava quase sempre seco) e em uma fotinho de calendário, que ele costumava pendurar em um prego enferrujado preso nas rachaduras da parede de barro. Era nessa foto que João, o lavrador, filho de Cícero, o lavrador, neto de Lorival, o lavrador, bisneto de Pedro, o lavrador, fixava seu olhar sonhando com aquele mundo d’água que certamente viria a cair um dia.

E um dia, finalmente, a chuva veio. E veio muito maior do que todas as que costumavam povoar os loucos sonhos de João, o lavrador, filho de Cícero, o lavrador, neto de Lourival, o lavrador, e bisneto de Pedro, o lavrador. Choveu tanto e por tanto tempo que o sertão quase virou mar e o mar quase virou sertão. E João, o lavrador, filho de Cícero, o lavrador, neto de Lourival, o lavrador, bisneto de Pedro, o lavrador, pulava de felicidade e se atirava em cada poça que encontrava pela frente.

E por dias foi somente o que João, o lavrador, fez. Quando por fim a chuva parou, o céu abriu e o sol novamente brilhou, todas aquelas sementes que João, o lavrador, filho de Cícero, o lavrador, havia esperançosamente semeado por fim brotaram, e a alegria novamente habitou no seu nordestino coração. E quando a noite por fim chegou, João, o lavrador, leve como uma criança, adormeceu.

Porém João, o lavrador, filho de Cícero, o lavrador, neto de Lourival, o lavrador, bisneto de Pedro, o lavrador, não sabia que o último e desaparecido feijão mágico não havia sido efetivamente perdido. Ah, isso não. João, o lavrador, havia, isso sim, o enfiado no ouvido. Sim, no ouvido. E tão fundo havia João, o lavrador, o enfiado no referido orifício que ali permaneceu por todo esse tempo, hibernando.

A secura do lugar impediu que o feijão mágico germinasse, e esse ficou inerte até que a chuva e os banhos nas poças que João, o lavrador, filho de Cícero, o lavrador, neto de Lourival, o lavrador, e bisneto de Pedro, o lavrador, tomou despertaram o fabuloso grão.

E naquela noite, enquanto João, o lavrador, dormia tranqüilamente, o mágico vegetal brotou de seu ouvido, serpenteou por seu corpo, chegou ao chão e se enraizou.

Continuou então crescendo noite adentro, erguendo João, o lavrador, filho de Cícero, o lavrador, neto de Lourival, o lavrador, bisneto de Pedro, o lavrador, até às nuvens.

Quando amanheceu, João, o lavrador, filho de Cícero, o lavrador, neto de Lourival, o lavrador, e bisneto de Pedro, o lavrador, de tão atado, mal conseguia se mover. Pegou sua peixeira com o restinho de liberdade que sobrou em sua mão direita e, ainda sem entender o que acontecia, cortou os ramos que o seguravam e arrancou o resto do pé de feijão de sua cabeça, voltando a ouvir estereofonicamente (João, o lavrador, sempre pensou ser surdo daquele ouvido, coisa que pouco lhe importava até então, visto sempre ter sido muito cabeça dura e nunca ter dado ouvidos a ninguém).

Quando se viu livre, pôs-se a olhar ao redor, tentando compreender sua situação. Olhou para baixo, viu sua minúscula propriedade e um enorme pé de feijão que subia até às nuvens. Olhou para frente e, vendo um descomunal castelo sobre as nuvens, disse:

– Ai, meu Padimpadiciço! Eu num divia tê cumido toda aquela panela di macaxera antis di durmi.

Apesar do medo, e sem entender direito como tudo aquilo estava acontecendo, João, o lavrador, filho de Cícero, o lavrador, neto de Lourival, o lavrador, e bisneto de Pedro, o lavrador, resolveu dar uma olhada dentro do castelo e averiguar se realmente existiam gigantes e galinhas que botavam ovos de ouro, conforme se lembrava das histórias que sua mãe, Dona Maria, esposa de Cícero, o lavrador, nora de Lourival, o lavrador, havia lhe contado na infância. Enquanto se dirigia para a entrada, ficou um tanto perturbado com a situação na qual se encontrava:

– Vixe! Tô pisando nas nuvi e num caio? Cumé qui pódi isso? Isso não pódi não!

E, nesse mesmo instante, João, o lavrador, filho de Cícero, o lavrador, neto de Lourival, o lavrador, e bisneto de Pedro, o lavrador, despencou lá de cima feito uma pedra e só não se estatelou no chão porque na queda se agarrou nas patas de um carcará que voava mais abaixo e ambos caíram num pequeno açude que havia se formado com a chuva. E, embora tenha se machucado muito, conseguiu se arrastar para fora d’água. E ali na margem se deitou.

Ficou ali por horas, fitando a nuvem na qual havia estado e, por fim, emendou:

– Por que diacho eu mi arrebentei aquimbáxo i aquela pesti di castelo inda tá lá dipendurado?

Alguns instantes depois, João, o lavrador, filho de Cícero, o lavrador, neto de Lourival, o lavrador, e bisneto de Pedro, o lavrador, foi soterrado por milhares de toneladas de pedra.

Moral: Se a fé pode mover montanhas, então a dúvida pode fazê-las desabar sobre sua cabeça.

Obs: Com o tempo pode-se até esquecer dessa fábula (o que não seria nada ruim), mas com certeza não se esquecerá da árvore genealógica de João, o lavrador, filho de Cícero, o lavrador, neto de Lourival, o lavrador, bisneto de Pedro, o lavrador, e por aí vai Caatinga afora (ou adentro, sei lá).

Do Blog Diário de Um Lunático

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