A Anatomia de Uma Desaparição


Descobri que sou um sujeito muito sujeito. Sujeito a sumiços, desvanecimentos, eclipses, evaporações, influências (internas e externas), inconformismos (e porque não incluir alguns conformismos também), e a toda a sorte de sorte e azares, sejam eles reais ou imaginários.

Pus-me a imaginar esses dias (sim, é inevitável, eu sempre imagino coisas) o que seria de mim se eu não existisse. Descobri, a princípio, que se eu não existisse, minha não permanência no mundo das coisas provavelmente faria com que eu não me importasse com a resposta dessa pergunta e, portanto, nunca a faria, mesmo que fosse possível nessas circunstâncias.

A fim de colocar um término nesse paradoxal estorvo, supus então que eu não existisse, mas, que de alguma forma, eu possuísse o mínimo de consciência para tomar consciência da falta de consciência que minha inexistência me proporcionasse.

Examinando os resultados de meu imaginário e controlado experimento pseudobiopsicosociocientífico, pude concluir que minha experiência concreta de inexistência vivida seria, antes de tudo, muito vazia, principalmente para mim. Descobri que estar ausente seria tão desmotivador que se não descobrisse uma forma de fazer algo concreto entraria em total estado de catatonia, ficando assim completamente alienado como se nem existisse, mesmo que de fato não existisse.

Sequioso por avaliar minha experiência no limite da praticidade, meditei profundamente por várias horas no objetivo de retirar qualquer traço de matéria de mim mesmo. Estava decidido a me tornar consciência pura e avaliar minha proposição inicial. Passei então a andar pelas ruas apresentando uma completa falta de influência de minha pessoa para com o mundo, deixando que os indivíduos passassem por mim como se fosse nada mais que ar.

Tristemente devo constatar que não obtive muita colaboração dos inúmeros transeuntes pelos quais passei (ou não passei), pois se embirraram todos e se concentraram em atrapalhar meu experimento, colidindo violentamente contra meu inexistente corpo, vezes arremessando-me longe, vezes sendo arremessados, numa completa, absurda e irracional falta de espírito científico. Os automóveis então, é melhor que nem se comente.

Resolvi então testar minha teoria à noite, quando o números de pedestres nos passeios públicos e automóveis nas ruas e avenidas diminuem drasticamente. Entendi mais tarde que a aparente vantagem de se estar sozinho e não sofrer interferências de terceiros dissipa-se rapidamente quando você percebe que sem os referidos terceiros não há experimento. Mas nesse momento já era tarde para voltar atrás. Resolvi então ir em frente. (*)

Após alguns minutos a andar pela rua deserta, observei que havia algumas pessoas em uma viela próxima. Uma chance de testar minhas proposições, pensei eu. E mais uma vez a decepção quando três meliantes fortemente armados e profundamente embrutecidos pela vida marginal que levavam, friamente ignoraram minha incorporeidade e puseram-se a me destituir de meus pertences imateriais, atirando-me com violência dentro de um container de lixo após o assalto, provando definitivamente que é impossível se fazer ciência de ponta em um país de terceiro mundo.

Voltei para casa e, enquanto me recuperava de meu recente trauma urbano com uma nutritiva canja e um merecido descanso em minha poltrona favorita (única, por sinal), convenci-me de que jamais satisfaria a curiosidade acerca de minhas teorias enquanto houvesse tanta gente retrógrada atravancando o progresso. Apesar de tudo, não reclamo. Procuro olhar o lado positivo de todas as situações, e assim pude comprovar que, de fato, canja de galinha faz muito bem para a saúde, caso você não seja a galinha, é claro.

(*) Coisa que parece pequena, o simples “ir em frente”. Mas tal gesto carrega em si um grande significado e uma profunda virtude, principalmente ao se considerar que mesmo o mais virtuoso dos caranguejos só anda de lado.

Do Blog Diário de Um Lunático

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