Bipolar

Eu amo desorganizado, desenvergonhado. Tenho um amor que não é fácil de compreender porque é confuso!

Não controlo, não planejo, não guardo para o mês seguinte. A confusão é quase uma solidão adicional. Uma solidão emprestada. Sou daqueles que pedirá desculpa por algo que o outro nem chegou a entender, que mandará nova carta para redimir uma mágoa inventada, que estará se cobrando antes de dizer. Basta alguém me odiar que me solidarizo ao ódio. Quisera resistir mais. Mas eu faço comigo a minha pior vingança. Amar demais é o mesmo que não amar. A sobra é o mesmo que a falta. Desejava encontrar no mundo um amor igual ao meu. Se não suporto o meu próprio amor, como exigir isso?

Um dia li uma frase em Hegel: “nada de grande se faz sem paixão”. Mas nada de pequeno se faz sem amor. A paixão testa, o amor prova. A paixão acelera, o amor retarda. A paixão repete o corpo, o amor cria o corpo. A paixão incrimina, o amor perdoa. A paixão convence, o amor dissuade. A paixão é desejo da vaidade, o amor é a vaidade do desejo. A paixão não pensa, o amor pesa. A paixão vasculha o que o amor descobre. A paixão não aceita testemunhas, o amor é testemunha. A paixão facilita o encontro, o amor dificulta. A paixão não se prepara, o amor demora para falar. A paixão começa rápido, o amor não termina.

Não me dou paz sequer um segundo. Medo imenso de perder as amizades, de apertar demais as palavras e estragar o suco, de ser violento com a respiração e virar asma. Até a minha insegurança é amor. O pente nos meus cabelos é faca enquanto é garfo para os demais. Sofro incompetência natural para medir a linguagem das laranjas, acredito desde pequeno que tudo o que cabe na mão me pertence. Minha lareira não dura uma noite, esqueço da reposição das achas, do envolvimento da lenha no jornal, de assoprar o fundo. Brigo com o bom senso. Ou sinto calor demais ou sinto frio demais. Uma ânsia de ser feliz maior do que a coordenação dos braços. Um arroubo de abraçar e de se repartir, de se fazer conhecer, que assusta. Parece agressivo, mas é exagerado. Conto tragédias de forma engraçada, falo de coisas engraçadas como uma tragédia. Nunca o riso ou o choro acontece quando quero. Cumprimento como se fosse uma despedida. Desço a escada de casa ao trabalho com resignação, mas subo na volta pulando os degraus. Esse sou eu: que vai pela esperança da volta.

(Fabrício Carpinejar)

Fabrício Carpinejar é um jornalista, escritor e professor gaúcho que possui dezenas de prêmios literários.

Sim, Está Tudo Certo!

Sim, está tudo certo…
São proibidas as margens curtas…
As regras definidas
Os computadores proibiram os versos!
Afinam as regras de mercado!

O teclado transformou o papel
Num papel ilustrado.
Esta vida é um burel,
Que me deixa prostrado.
Ainda, assim, continuo vivo
Nas palavras combinadas de azul:
De um azul sem rimar
Tingido de púrpura
Atingido de fel…

O plástico do teclado
Tem as letras apagadas,
Os números debotados
E os cifrões transfigurados.
As letras são, agora, percentagens.
Os pontos sociedades anônimas,
De rostos limitados,
Limitam o meu tempo.

Enfrento o computador…
O monitor não faz parte da poesia!
A poesia prefere as flores,
Entranhas,
Por onde perpassa a luz.
Hoje não há poesia!

Poderia tentar um poema de amor.
Amor não!
A dor é maior que as dores.
Só o canto me apaixona!
Só o canto me desencanta!
Amores e desamores
O meu não partiu!
Paro de bater no teclado!
Não sai nada…
Nada se viu!
Ando às cegas!
Que importa ver?
A fórmula diz tudo…
As regras são impostas
Que importa saber
Se o jogo já começou…

Peito aberto!

E na ferida do meu peito
Deixo encoberto,
Na amargura e na dor,
Palavras que se soltam
De um computador…

“Sim está tudo certo
Está tudo perfeitamente certo
O pior é que está tudo errado”

Extraído de um Poema de Fernando Pessoa

 

(Rogério Martins Simões)

 

Leia o original no blog do autor

 

Um Acorde Qualquer

Hoje acordei meio descabido
pelejando pra juntar os versos que escapuliram de mim
Hoje transbordei o meu sorriso
desatando os meus nós, um por um, e descobri que não tenho fim
Por um lado foi bom que me encontrei com meus sons
minhas pequenas antigas cantigas sem rima
que costumava cantarolar por aí
Mas por outro foi meio triste, por que me lembrei daquele velho batom
que acostumei a saborear na boca daquela menina
que costumava gostar de sorrir
E revivi aqueles antigos sentidos que já não tenho mais
aqueles perdidos caminhos que vez ou outra tentei esconder
Degustei enfim esse sabor amargo que traz a ausência de paz
ouvi na lembrança então um acorde qualquer que me fez entender:
As vezes assim sem querer,
agente se perde mesmo sem saber,
e se encontra assim ao amanhecer,
e mexer em nossos guardados não é algo que se deva fazer.

Feliz Idade

A felicidade é a qualidade de quem é feliz,
ela não está na ponta do nariz,
nem muito menos na palavra de quem diz,
e nem quer aquilo que você sempre quis.
ela é amena,
serena,
poema,
traz a solução pra todo tipo de problema.
Ela não é o fim,
mas sim o meio
de chegar ao seu destino.
Se não sabe o que é essa tal felicidade,
procure ela na simplicidade que não cabe,
do olhar tranquilo, de um doce pequeno e sereno sorriso,
de um pequeno mas imenso e feliz menino!