A Guerra dos Gramofones


Ao sul do lado escuro da lua encontravam-se seres inanimados que entoavam cantigas velhas e cultuavam divindades insólitas e que se utilizavam de um antigo aparelho que reproduzia sons humanos em uma frequência desindexada e invariavelmente desplugada que poucos dos ouvintes que ali estavam se atentavam para o fato daquilo ser tão único e tão sureal, principalmente naquele tempo de guerras e devastação.

Um velho tenta enviar um pedido de socorro através de código morse, mas as frequentes quedas de energia e a onda solar que destruiu todos os aparelhos eletrônicos da terra, tornam sua tentativa vã e sem sucesso, e mesmo que consiga, sabe que a probabilidade de ter alguém que possa lhe ajudar é pequena, para não dizer irrisória.

De repente uma explosão e um terremoto fazem todos que estão por ali, correrem e procurarem as fendas para se abrigarem, pois sabem que a qualquer momento chuvas de asteróides podem castigar o solo lunar. Mesmo no caos, uma menina chora olhando com perplexidade o azul acinzentado daquilo que um dia foi o seu lar e agora não passa de um planeta ceifado de seus habitantes e repleto de gases mortais e seres estranhos dotados de uma crueldade bizarra e desprovidos de qualquer característica humana. Antes da fuga em massa, sua mãe havia lhe contado dos problemas que o próprio homem tinha causado a si mesmo ao desobedecer as leis da natureza e como os homens foram se degradando das formas mais aterradoras possíveis. Ela sabia que tão nova, não tinha participado das atrocidades cometidas contra sua casa, mas pagava o alto preço de ter a certeza que nunca mais iria voltar para sua vida.

Uma senhora sentada em uma cadeira de balanço ouve uma música triste em um gramofone todo amassado e tece alguns nós de tricô, vendo aquilo um rapaz não se contem e pergunta: Como pode ter tanta calma senhora, estamos em um planeta ostil, refugiados e sem saber se um dia conseguiremos voltar para nossa terra? A senhora então sorri, com o olhar vago, perdido, sem foco e diz: Ingênuo rapaz, aquela vida que você vivia nada mais era que uma morte maquiada, onde tudo era robotizado, temos mais é que dar graças ao sol, como faziam os antigos, pois se não fosse ele, estaríamos lá naquele planeta insano, perdendo nossos anos sem as vezes dizer um simples: eu te amo!

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